A conexão entre diferentes tecnologias tem impulsionado uma nova etapa de ganhos de eficiência e competitividade na logística brasileira. Além de investir em ferramentas isoladas, os Operadores Logísticos têm direcionado esforços para unificar sistemas, ampliar a visibilidade das atividades, apoiar decisões em tempo real com o embarcador, reduzir ociosidade e elevar os níveis de serviço ao longo da cadeia de suprimentos e abastecimento.
A análise foi apresentada pela diretora executiva da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL), Marcella Cunha, durante o evento Transporte do Futuro, promovido pela Mundo Logística, em São Paulo. "Estamos em um momento de movimentos heterogêneos, mas observamos um direcionamento comum: a busca por soluções capazes de interligar diferentes plataformas", destacou a diretora durante o painel “Construindo diferencial competitivo no transporte”.
Os dados do último Perfil dos Operadores Logísticos reforçam esse movimento. Em 2024, 83% aplicaram recursos em softwares. Entre os mais consolidados estão os diretamente ligados à gestão, como o TMS, utilizado por 92% das empresas, e o WMS, presente em 91%. A integração com clientes e fornecedores também já alcança um patamar elevado, sendo adotada por 84% delas.
O levantamento também aponta a evolução de soluções voltadas à conectividade, monitoramento e inteligência operacional. As torres de controle passaram a ser usadas por 74% dos OLs, registrando crescimento de 19% em relação a 2022. Já as ferramentas de data analytics atingiram 39% de adoção, com alta de 7%, enquanto os veículos elétricos chegaram a 34%, progredindo 8% no mesmo período.
Para Marcella, a transformação do transporte passa pela combinação entre inovação, processos, indicadores confiáveis, articulação entre os agentes envolvidos e profissionais capacitados para utilizar esses recursos de forma estratégica na tomada de decisão.
Ela ainda lembrou que os OLs projetam ampliar, até 2026, os aportes em torres de controle, análise de dados, conectividade digital e aplicativos para motoristas. No entanto, alguns desafios limitam a adoção em larga escala de determinadas soluções. Um dos exemplos é a roteirização dinâmica, especialmente nas operações de last mile, que busca otimizar as entregas a partir de variáveis como trânsito, janelas de atendimento e restrições de circulação para veículos leves e pesados.
Segundo a diretora, os principais obstáculos residem na baixa qualidade e frequência dos dados de tráfego, evidenciada pela falta de confiabilidade nas fontes locais, além de dificuldades no uso dos apps de rotas por parte de alguns motoristas.
“O panorama se torna um pouco mais complexo em função da dependência de motoristas agregados e transportadoras com níveis de maturidade tecnológica heterogêneos, consolidando a utilização de sistemas distintos e não integrados como o maior freio para a modernização nesta etapa de distribuição”.
Trabalho
O futuro do trabalho e a dificuldade de atrair e reter profissionais qualificados, especialmente motoristas e colaboradores que atuam nos centros de distribuição e armazéns, também foram abordados. Ela apontou a necessidade de recorrer à automação e robotização como alternativa para suprir lacunas de mão de obra, o que não significa substituir pessoas. O desafio é ambas as agendas caminharem juntas.
Marcella alertou que, sem a renovação dessa força de trabalho ou a adoção de alternativas tecnológicas sustentáveis, a logística brasileira poderá perder competitividade nos próximos anos. “O segmento não pode parar. Nossas operações conectam armazéns, centros de distribuição, terminais, portos, aeroportos e transporte em uma dinâmica 24 horas por dia, sete dias por semana”, disse.
Diante disso, ela avalia que a robotização tende a ganhar espaço gradualmente. Entre as aplicações que já estão se desenvolvendo no mercado, ainda que em estágios de maturidade diferentes, estão os robôs digitais, conhecidos como “bots”, capazes de processar dados e executar tarefas repetitivas em sistemas, como conferência de documentos e preenchimento de informações.
No ambiente operacional, a expectativa é de incremento do uso de robôs físicos, como AMRs (Autonomous Mobile Robots) e AGVs (Automated Guided Vehicles) em armazéns, além de braços robóticos voltados à paletização e, futuramente, os próprios humanoides.
“O setor que conseguir atrair e desenvolver talentos, ao mesmo tempo em que incorpora tecnologia de forma inteligente, estará mais preparado para responder aos gargalos de qualidade, segurança e continuidade operacional no futuro”.
Conexão
Sobre multimodalidade, a diretora da ABOL entende que é preciso transformar iniciativas pontuais em política pública de Estado. Além disso, ela defende que o foco não deve ser apenas em termos mais ferrovia, porto, hidrovia e rodovia de forma desvinculada ou isolada, mas fazer com que esses ativos conversem entre si.
“A discussão precisa sair de ‘qual modal é o melhor’ e ir para ‘qual combinação é mais eficiente para cada fluxo’. Multimodalidade se decide com dados: origem, destino, tipo de carga, prazo, custo, risco, nível de serviço. A questão envolve mais do que o ativo transporte em si, exige integração e infraestrutura nos pontos de integração - como terminais, áreas de transbordo, retroáreas, armazéns e afins. A multimodalidade, muitas vezes, não morre no transporte em si, mas nos pontos de conexão”, enfatizou.
Nesse contexto, Marcella destaca que o caminhão não deve ser visto como um adversário da multimodalidade, mas parte indispensável dela, pois tem capilaridade, sendo responsável pela coleta e a distribuição, ou seja, a primeira e última milhas.A executiva também reforça o papel estratégico do Operador Logístico nesse processo.
“Ele enxerga a cadeia de ponta a ponta, podendo ajudar o país a sair de uma lógica modal isolada para uma integrada de rede. O OL consegue mostrar onde a integração funciona e trava”.
Ao mesmo tempo, o ganho depende da atuação do poder público. “O governo tem o papel fundamental de planejar, coordenar e induzir carteiras robustas de projetos que possam desenvolver a multimodalidade. Precisa dar previsibilidade, estruturar boas ideias com a iniciativa privada, integrar políticas públicas e reduzir assimetrias regulatórias entre os modais”.