24/02/2021

"Hidrovias do Brasil: “Não fizemos o IPO porque precisávamos de captação”"

 "Hidrovias do Brasil: “Não fizemos o IPO porque precisávamos de captação”"


O ano de 2020 foi desafiador para a economia, mas a Hidrovias do Brasil (HBSA3) usou o período para comprovar teses. A empresa de logística integrada, que estreou na B3 em setembro do ano passado movimentando R$ 3,4 bilhões em uma oferta totalmente secundária, conseguiu não só crescer em um ano atípico, mas também provar sua estratégia de se expor em setores que sofrem menos com crises macroeconômicas.

“Operamos com agronegócio, grãos, minério de ferro, minério de bauxita e com papel e celulose, que foram muito bem na crise”, diz Fabio Schettino, CEO da Hidrovias do Brasil.

O IPO estava nos planos para sair do papel em março do ano passado, mas foi adiado para setembro por conta da pandemia. Cada ação foi precificada em R$ 7,56, no piso da faixa indicativa, de até R$ 8,88. Para o CEO, apesar do adiamento e das ações precificadas no valor mínimo, a oferta representou um movimento correto da companhia.

“Não fizemos um IPO porque precisávamos de uma captação. Como não havia pressão de liquidez na companhia, optamos por uma oferta secundária”, diz Schettino. “Muitas empresas que vieram depois não conseguiram nem sair com o seu respectivo IPO. Outras saíram abaixo da faixa indicativa”, compara.

No terceiro trimestre do ano passado, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 8,52 milhões, contra um lucro líquido de R$ 22,16 milhões no mesmo período de 2019. Já o Ebitda foi de R$ 134,4 milhões, 17% acima em relação ao ano anterior.

De acordo com Schettino, a reversão de lucro em prejuízo se deve ao fato de que mais da metade da geração de caixa da companhia é em dólar-0,06%. “Este prejuízo é resultado de variação cambial não-caixa sobre o resultado. Se o dólar voltar a subir, tudo aquilo que tivemos de prejuízo vem como lucro. E o mercado ajusta o resultado da companhia para esses efeitos”, afirma Schettino.

Em entrevista exclusiva ao E-Investidor, o CEO da Hidrovias do Brasil comenta também sobre as perspectivas da empresa para a retomada econômica, a expectativa por investimentos em infraestrutura pelo governo e o futuro da matriz de transportes no País.

E-Investidor: A Hidrovias acabou de reestruturar suas dívidas, mas sem alterar significativamente o montante original dos débitos. Em que medida isso vai beneficiar a empresa?

Fabio Schettino: O que nós nos propusemos a fazer foi uma recompra antecipada das bonds que venciam em 2025 e a partir daí nós emitimos uma dívida nova. Com essa captação nós pagamos a recompra, só que em condições mais favoráveis, tanto do ponto de vista de prazo como de custo. Isso é muito favorável para a gestão de caixa da companhia. Para o acionista é muito bom porque gera valor para a empresa ter uma dívida mais longa e principalmente mais barata. Esse movimento nos coloca preparados para o próximo ciclo de crescimento, à medida que geramos muito fluxo de caixa livre.

A empresa visa outra operação do tipo mirando este novo ciclo de crescimento?

Não. Estamos com a estrutura de capital ajustada para suportar o próximo ciclo de crescimento. Temos basicamente duas dívidas. Esse bond e uma dívida menor que está atrelada ao nosso negócio de cabotagem de bauxita. Mas essa é uma dívida muito longa e muito barata. Por isso, decidimos não substituí-la, como um movimento de ganho de eficiência financeira.

Quase um ano desde o início da pandemia, o que a Hidrovias tira de lição, principalmente em termos de proteção?

Vamos deixar para trás uma série de desafios, mas vamos carregar para o futuro uma série de aprendizados também. Eu digo internamente que não há nada como uma boa crise para provar fundamento. O nosso negócio foi plenamente testado nesta pandemia. A companhia cresceu bastante no ano passado, mesmo sujeita a um ambiente extremamente complexo. Nos últimos nove meses (janeiro a setembro), comparados com os do ano anterior, o faturamento cresceu mais de 50%.  Tudo isso em meio a uma situação muito delicada, onde a maioria das empresas estavam sofrendo muito. Isso mostra a resiliência dos fundamentos da companhia.

Quais fundamentos?

Os setores que nós operamos são poucos correlacionados com o PIB do Brasil. Operamos com agronegócio, grãos, minério de ferro, minério de bauxita e com papel e celulose, que foram muito bem na crise. A estratégia foi ampliar a exposição em setores que sofrem menos com essas crises macroeconômicas. Por outro lado, são setores onde o País atua como um player global. O Brasil continuou sendo o grande provedor de grãos, de minério e papel e celulose para o mundo, mesmo durante a pandemia. Mas os fundamentos operacionais também são muito importantes. A companhia tem ativos de primeiríssima qualidade, com um nível de produtividade muito alto. Em situações de crise, isso acaba sendo uma vantagem competitiva.

Quais aprendizados serão levados para o futuro?

As relações de trabalho são um exemplo desse legado. No dia 15 de março de 2020, já decretamos home office. Todo o nosso sistema estava na nuvem. Quase um ano depois, as relações de trabalho se mostraram muito mais produtivas e flexíveis. Isso é algo que, independentemente de quando passar a pandemia, vamos manter. Já mudamos os contratos de trabalho, para permitir que continuemos em um regime muito mais flexível. Home office, na nossa visão, é uma tendência irreversível.

No terceiro trimestre, houve uma reversão lucro em prejuízo, ainda que a companhia não tenha sido vista como uma das mais prejudicadas pela pandemia. O quarto trimestre deve ser mais animador?

Temos mais de 60% da sua geração de caixa em dólar. Isso nos permite ter uma dívida em dólar porque eu estou protegido do ponto de vista de fluxo de caixa. Não assumimos nenhum risco de exposição a fluxo de caixa, desse casamento de moeda. Quando há uma variação cambial brusca, como vivenciamos no ano passado, por regras contábeis, temos toda a dívida convertida para reais, em um dólar mais alto, e isso afeta o resultado. Mas esse é um efeito não-caixa sobre o resultado. É natural que ocorra. O prejuízo, portanto, é resultado de variação cambial não-caixa sobre o resultado. Se o dólar voltar a subir, tudo aquilo que tivemos de prejuízo vem como lucro, por exemplo. O mercado ajusta o resultado da companhia para esses efeitos. Na estabilidade do dólar agora, voltamos a ter um resultado de novo mais compatível ou menos contaminado por variação cambial. Se o dólar voltar, ele vai estar contaminado positivamente também.

Então o que podemos esperar do quarto trimestre?

Não podemos dar nenhum tipo de guidance, mas a companhia é operacionalmente lucrativa. Se não tiver grandes variações cambiais, ela terá o lucro. Se o dólar voltar, esse lucro será amplificado pela variação cambial. Se o dólar estressar mais vai ser outro impacto negativo.

A Hidrovias realizou um dos maiores IPOs de 2020, mesmo com as ações precificadas no piso da faixa indicativa de preços. A suspensão da oferta, em março, foi um acerto?

Sem dúvidas. Não fizemos um IPO porque precisávamos de uma captação. Como não havia pressão de liquidez na companhia, optamos por uma oferta secundária. Esperávamos que o mercado voltasse e fizemos uma operação dentro do intervalo (de preço por ação). Muitas empresas que vieram depois de nós não conseguiram nem sair com o seu respectivo IPO. Outras saíram abaixo da faixa indicativa.

As ações da companhia não figuraram entre as novatas com melhor desempenho. Considerando esse cenário e as metas de crescimento, no que o investidor precisa ficar atento?

O mercado deveria estar atento que não houve mudança nos fundamentos da companhia, que estão absolutamente preservados e sólidos. As oportunidades de crescimento são enormes. Estamos em um processo de ser mais conhecidos no mercado, ganhar liquidez e estabilizar a base de acionistas. O mercado deveria olhar com muito carinho os fundamentos da companhia para ver se ela está bem precificada. Isso pode gerar grandes oportunidades de negócio e de ganhos.

Você está otimista sobre a retomada econômica em 2021, considerando a situação político-econômica do País e a expectativa de vacinação em massa?

Estamos extremamente otimistas porque 2021 é um ano muito promissor para a companhia. O agronegócio, a mineração e o papel e celulose vão continuar crescendo muito. A companhia está com a sua capacidade praticamente toda tomada este ano. Obviamente que um ambiente macroeconômico mais favorável e uma situação de saúde pública mais administrada sempre ajuda.

E como fica a perspectiva de investimentos do governo em infraestrutura?

Um exemplo concreto é a pavimentação da BR-163, que na sua primeira fase foi pavimentada e trouxe um ganho de competitividade muito grande para o Arco Norte. O próximo passo agora é a concessão da BR-163. Na sequência, esperamos que o governo, que tem dito abertamente que incentiva o projeto, viabilize a \[ferrovia] Ferrogrão. No nosso entendimento, isso traria competitividade para o corredor Norte. Apoiamos ter a BR-163 na mão da iniciativa privada, para que ela seja bem mantida, e na sequência, como seria uma concessão mais curta, que se viabilizasse a Ferrogrão.

Há ambiente político-econômico propício para isso, diante das demandas consideradas prioritárias?

Sem dúvidas. De todos os projetos ferroviários, o Ferrogrão é o que tem mais demanda cativa. Quando ela for finalizada, daqui uns sete anos, todo grão será transportado pela ferrovia. Há uma discussão forte sobre o impacto socioambiental que ela gera. Na nossa visão, se bem planejada, uma ferrovia é mais ambientalmente amigável do que a rodovia.

O que precisa ser feito para ampliar os modais de transportes no País?

O Brasil tem uma matriz de transporte muito desbalanceada e concentrada no caminhão e na rodovia. O caminhão é e sempre vai ser importantíssimo, mas não para longas distâncias. É uma distorção um caminhão rodar com 40 toneladas por 2,5 mil quilômetros. Isso não faz sentido. Quando olhamos as teses ferroviárias e hidroviárias no Brasil, elas visam à mesma coisa: melhorar a matriz de transporte, torná-la mais eficiente e ambientalmente mais amigável. A ferrovia e a hidrovia, do ponto de vista de emissão de carbono, de consumo de combustível e de poluição de particulares, são muito mais eficientes.

Como vê o cenário para o crescimento da malha hidroviária?

No caso das hidrovias, o Brasil tem uma vantagem enorme, porque tem a maior bacia hidrográfica do mundo. Esse modal não se desenvolveu tanto porque há dificuldade de botar ativos para navegar. É uma questão de infraestrutura associada à navegação. Precisa ter capacidade de carga e descarga e foi nisso que a Hidrovias do Brasil se fundamentou.

Quando falamos que somos independentes, mas integrados, o conceito de integração tem a ver com isso. Temos um transbordo, uma navegação e um porto de exportação. O que precisa ser feito é gerar estímulos para que a infraestrutura que viabiliza a navegação seja cada vez maior, independentemente de ser transbordos ou de portos de exportação. Os processos de licenciamento também precisam ser mais ágeis. Esse é um modal clean, uma tendência irreversível. Por exemplo, não dá para fazer uma ferrovia ou uma estrada na Amazônia, mas dá para navegar nos rios com absoluto rigor de compromisso ambiental.

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