A escassez de motoristas, provocada sobretudo pela falta de mão de obra qualificada, já tem impactado as atividades das empresas filiadas à Associação Brasileira dos Operadores Logísticos (ABOL), conforme pesquisa realizada pela entidade junto ao grupo. Às vésperas do Dia do Motorista, celebrado em 25 de julho, e diante da importância desses trabalhadores para a economia brasileira, a ABOL chama atenção para esse cenário, que tem impulsionado debates, ampliado os investimentos em tecnologia e reforçado a defesa de políticas públicas voltadas à valorização da carreira e à criação de condições capazes de atrair uma nova geração para a atividade.
De acordo com o levantamento, a carência de profissionais capacitados é apontada por 88,9% das associadas ouvidas como o principal obstáculo para ampliar ou manter o quadro de motoristas, seguida pela baixa atratividade da carreira (66,7%). A ausência de formação adequada e as condições de trabalho e de jornada pouco convidativas também aparecem como entraves relevantes, ambas citadas por 44,4% dos respondentes, enquanto a alta rotatividade e a falta de reconhecimento da função foram mencionadas por 33,3%.
Os reflexos já são percebidos no dia a dia. Para 66,7% dos OLs participantes da enquete, a escassez afeta os negócios de forma moderada, enquanto 22,2% relatam consequências significativas. Entre os principais impactos estão o maior tempo para preenchimento de vagas (77,8%) e a elevação dos custos (66,7%), além das dificuldades para atender à demanda e da redução da capacidade operacional, ambos apontados por 44,4% dos entrevistados.
Segundo a diretora executiva da ABOL, Marcella Cunha, esse quadro representa um dos maiores desafios estratégicos para o mercado. "A logística presta um serviço essencial para a economia e não pode parar. Se não conseguirmos renovar essa força de trabalho, aumentar a multimodalidade e desenvolver alternativas tecnológicas sustentáveis para suprir essas lacunas, o setor poderá perder competitividade", afirma.
Nos próximos dois anos, a maior parte dos OLs pretende ampliar os aportes em tecnologia como resposta ao déficit de profissionais. Sistemas de roteirização e otimização de viagens (77,8%) e telemetria e monitoramento da frota (77,8%) lideram as prioridades, seguidos por soluções de Inteligência Artificial e análise de dados (66,7%) e automação de processos (55,6%).
Essa tendência, na visão de Marcella, demonstra que a inovação vem sendo utilizada como aliada para elevar a eficiência e minimizar a crescente dificuldade de admissão. "A resposta não é escolher a tecnologia em detrimento de pessoas. Não se trata de substituição, mas de complementaridade para solucionar o problema da baixa atratividade da profissão de motorista de longas distâncias que estamos vivenciando não só no Brasil, mas no mundo. O impasse é fazer as duas agendas caminharem juntas. As ferramentas tecnológicas, por ora, estão sendo utilizadas para reduzir tarefas repetitivas, apoiar a tomada de decisão e elevar a produtividade, ao mesmo tempo em que qualifica o trabalho do caminhoneiro", destaca.
O levantamento da ABOL também evidencia uma percepção crescente sobre a relação entre bem-estar e permanência na atividade. Para 55,6% dos OLs respondentes, a falta de cuidados com a saúde física e mental dos motoristas contribui, ao menos em parte, para a baixa disponibilidade de profissionais, enquanto 22,2% demonstram concordância plena com essa avaliação.
Ao serem questionadas sobre as iniciativas que mais contribuiriam para aprimorar a experiência dos caminhoneiros, foi apontado, prioritariamente, a melhoria da infraestrutura dos pontos de parada e descanso (66,7%). Em seguida aparecem maior respeito e valorização por parte dos embarcadores, programas de saúde e segurança, além do aperfeiçoamento dos benefícios, todos mencionados por 55,6% dos respondentes.
Na avaliação de Marcella, tornar as carreiras logísticas mais atrativas exige uma atuação coordenada entre iniciativas privadas e públicas. "É preciso investir continuamente em capacitação, desenvolvimento, aperfeiçoamento do recrutamento, fortalecimento da cultura organizacional e inovação nos pacotes de remuneração e benefícios, que devem ser compatíveis com a complexidade da atribuição. O caminho não é tratar o capital humano como um custo operacional, mas como parte da estratégia de competitividade", ressalta.
Essa visão já faz parte da realidade do segmento. O último estudo do perfil dos Operadores Logísticos mostra que 96% investem em mão de obra qualificada, reforçando que a competitividade depende da combinação entre digitalização, infraestrutura e talentos preparados. "A logística do futuro será cada vez mais digital, mas continuará sendo conduzida por profissionais capacitados para transformar a tecnologia em geração de valor", conclui a diretora.