Os Operadores Logísticos (OLs) expandiram a sua relevância na economia brasileira e começaram a explorar de forma mais estruturada a multimodalidade. Em 2025, o segmento faturou R$247 bilhões, equivalente a quase 2% do Produto Interno Bruto (PIB) e a 20% dos gastos nacionais com transporte e armazenagem. Além disso, 31% dos OLs já oferecem serviços envolvendo mais de um modal, enquanto 20% das cargas passam por dois ou mais no mesmo processo.
Os dados fazem parte do Perfil dos Operadores Logísticos no Brasil, levantamento encomendado pela Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) ao Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) e divulgado em setembro. Realizado a cada dois anos, o estudo acompanha a evolução, os e as perspectivas do segmento. Nesta edição, a multimodalidade ganhou um capítulo específico, ao lado de indicadores sobre mercado, investimentos, tecnologia e mão de obra.
O País reúne cerca de 1.500 OLs, alta de 15% em relação à pesquisa anterior. O faturamento cresceu 18%, enquanto 64% dos participantes da pesquisa relatam aumento em sua área de atuação. Os 32 associados à ABOL somam R$ 45 bilhões em receita, equivalentes a 18% do mercado, enquanto 17% dos maiores concentram 77% do faturamento.
Em abrangência, 31% atuam nas cinco regiões brasileiras e 31% oferecem serviço internacional. O Sudeste concentra instalações ou operações de 98% dos OLs, seguido pelo Sul, com 79%. Entre os principais nichos atendidos estão automotivo e autopeças (69%), cosméticos (62%) e eletroeletrônicos (59%).
Oportunidades, investimentos e custos
Em 2025, os OLs geraram 983 mil empregos diretos e, considerando postos indiretos e cadeias periféricas, chegaram a 2,8 milhões de pessoas, ou 2,7% da população ocupada no País. Em tributos e encargos, foram R$57 bilhões em todas as esferas da Federação, sendo R$8,5 bilhões a parcela dos filiados a ABOL.
Cerca de sete em cada dez operadores registraram crescimento de receita e da carteira de clientes. Os investimentos se concentraram em software (83%), modernização das instalações (78%) e frota (64%). Na qualificação profissional, 89% investiram em treinamento, enquanto a contratação pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) representa 80% da força de trabalho.
A margem de lucro, porém, segue crescendo abaixo do faturamento, pressionada pelos custos - tendência essa relatada nas duas versões passadas da pesquisa (2022 e 2024). O combustível é um dos principais fatores: 44% reajustaram preços abaixo da alta das despesas, enquanto 34% conseguiram repasses equivalentes ou superiores. Um outro custo relevante refere-se ao serviço de transporte aéreo de carga, o segundo mais utilizado pelos OLs.
Gargalos
A pesquisa mostra que a multimodalidade pode ampliar a produtividade, reduzir custos e emissões e oferecer alternativas mais eficientes de transporte. A oferta de soluções multimodais chega a 44% entre os grandes OLs, 29% entre os médios e 19% entre os pequenos.
Em termos documentais, 38% possuem a habilitação do Operador de Transporte Multimodal (OTM), emitida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mas 21% desses ainda não atuam efetivamente com mais de uma matriz. As empresas multimodais também apresentam maior escala: atendem, em média, 12 estados e 11 setores econômicos, contra 10 estados e sete segmentos entre as demais que não oferecem esses serviços.
Apesar do avanço, na perspectiva da carga, 80% das mercadorias ainda passam por apenas um modal, 17% por dois e 3% por três ou mais. O rodoviário está presente em 94% das atuações, seguido pelo aéreo nacional (21%), aéreo internacional (8%), marítimo internacional (7%), cabotagem (7%), ferroviário (5%) e hidroviário (3%).
Entre os principais entraves estão a indisponibilidade de ativos físicos, a baixa qualidade ou inexistência de infraestrutura, além de oferta limitada de rotas. Ferrovias e hidrovias receberam as piores avaliações, com notas médias de 3,2 e 3,4, respectivamente, em uma escala de zero a dez. Nas análises sobre terminais, barreiras regulatórias são apontadas como gargalos nas unidades aéreas, portuárias e alfandegárias, enquanto a baixa disponibilidade é o principal problema nos terminais ferroviários e hidroviários.
Para a diretora executiva da ABOL, Marcella Cunha, os dados reforçam a necessidade de uma mudança de perspectiva. “O Brasil ainda pensa muito em modais de forma segregada e pouco em logística verdadeiramente integrada e conectada. Não basta ter rodovia, ferrovia, hidrovia, porto e aeroporto, é preciso que essas infraestruturas se conectem de forma eficiente, com foco nos elos entre eles. Os Operadores Logísticos estão justamente no centro dessa integração por enxergar toda a cadeia. Por isso, ampliar a multimodalidade não é apenas uma agenda do nosso setor, mas uma agenda de produtividade e competitividade para o País e, portanto, deve ser tratada como uma política pública de Estado, e não de governo.”