Por Marcella Cunha, diretora executiva da ABOL
Planejar o futuro da logística passa pela capacidade de acompanhar as transformações tecnológicas e adaptar as operações às novas exigências do mercado. Mais do que modernizar, trata-se de garantir competitividade, eficiência e capacidade de resposta diante de clientes cada vez mais exigentes quanto à visibilidade da cadeia de suprimentos, rastreabilidade das cargas e integração operacional.
Nos últimos anos, o setor atravessou diferentes ciclos que mudaram profundamente a dinâmica das atividades. Ferramentas de gestão como TMS e WMS deixaram de ser diferenciais para se tornarem habilitadoras da atividade. Há poucos anos, nem todos os operadores logísticos utilizavam esses sistemas. Hoje, um OL sem maturidade digital dificilmente atende grandes embarcadores. Praticamente toda a base associada da ABOL já opera com essas soluções.
O movimento do setor está direcionado à integração de ponta a ponta. O crescimento do e-commerce, a necessidade de decisões em tempo real e a pressão por desempenho fizeram da troca de informações um requisito básico: os clientes querem acompanhar onde a carga está, seu armazenamento e como ocorre a gestão dos estoques.
Algumas tecnologias despertaram grande expectativa, porém, ainda não atingiram maturidade. Veículos autônomos e digital twins existem em experiências relevantes, mas a adoção permanece limitada, especialmente em países emergentes, por questões regulatórias, culturais e de custo.
Nesse contexto, a próxima grande transformação está na robotização, impulsionada pela crescente escassez de mão de obra. O desafio não se limita aos motoristas: há dificuldades de retenção em atividades operacionais, armazenagem e movimentação de cargas em diferentes regiões do Brasil. A automação surge, portanto, não apenas como ganho de produtividade, mas como alternativa para garantir a estabilidade do negócio.
Essa transformação precisa ocorrer de forma responsável e cautelosa. O profissional continuará no centro das operações, especialmente em atividades que exigem tomada de decisão, supervisão e relacionamento. O debate já avança rapidamente em outros mercados.
Na Ásia e nos Estados Unidos, os investimentos em robótica industrial e automação de centros de distribuição crescem em ritmo acelerado. Estimativas da IMARC Group projetam que o mercado global de automação logística pode ultrapassar US$ 230 bilhões até 2034, enquanto a Gartner prevê que metade dos novos armazéns em nações desenvolvidas será concebida no modelo "robot-centric" até 2030.
No Brasil, essa realidade ainda não está plenamente presente, mas a velocidade de disseminação dessas tecnologias para economias emergentes cresce. O desafio estará em encontrar o equilíbrio entre produtividade, inovação e valorização profissional, direcionando a automação para onde há maior falta de trabalhadores ou riscos técnicos mais elevados. Essa discussão, inclusive, já tem sido feita junto à nossa Diretoria de Capital Humano, com os RHs das empresas e também com as equipes de chão de fábrica e de supply chain.
O futuro do setor será tecnológico. Mas será, acima de tudo, construído pela capacidade de integrar inovação, eficiência e responsabilidade humana.