12/02/2021

A nova fronteira que transforma o Brasil

 A nova fronteira que transforma o Brasil


Rodrigo Pozzobon sorri como se não acreditasse na sorte que tem. É o sorriso enorme de quem acaba de tropeçar em um tesouro. De certa forma, foi isso mesmo que aconteceu.A mais de mil quilômetros dos Estados costeiros brasileiros - mais perto, em linha reta, do oceano Pacífico do que do Rio de Janeiro -, esse homem de 35 anos está surfando uma onda que tem atraído pouca atenção dos brasileiros e do mundo. Pozzobon é um dos reis da soja do Brasil.

Usando sapatos de camurça e uma camiseta bem limpa, ele poderia muito bem se passar por um “Faria Limer” - a elite de São Paulo que vive, trabalha e se diverte no distrito financeiro da cidade. Mas Pozzobon nasceu e foi criado em Mato Grosso e suas raízes são profundas. Seu pai trabalhou a terra para uma cooperativa na década de 1980, antes de estabelecer sua própria fazenda. Hoje, possui duas fazendas e duas casas. São Paulo é útil somente para ocasionais viagens de fins de semana.

“Não consigo me imaginar vivendo em outro lugar”, diz ele em inglês antes de mudar para o português, na medida em que o entusiasmo supera suas habilidades linguísticas. “Os lucros aqui são bons demais”. Nos últimos 20 anos, Mato Grosso, um Estado com quase duas vezes a área da Espanha, tornou-se um dos principais produtores do mundo de uma cultura tão lucrativa que os habitantes locais a chamam de “ouro verde”. Trata-se de um “boom” estimulado por mudanças na geopolítica, a ascensão da China e a chegada de líderes populistas como o presidente Jair Bolsonaro, um ídolo para muitos em Mato Grosso.

Em parte, esse “boom” também vem sendo alimentado pela destruição ambiental causada pela extração desordenada de recursos que manchou a imagem internacional do Brasil nos últimos anos. Mato Grosso é hoje dominado por enormes e planas plantações que lembram o Meio-Oeste dos EUA. Em suas regiões mais ao norte, onde a paisagem se encontra com a floresta amazônica, o Estado se tornou foco de desmate ilegal.

Mas esses assuntos não ocupam muito espaço na mente de Pozzobon. Riqueza e progresso são a ordem do dia e ele se sente otimista. “Poderíamos dar um tapa na cara da China e ainda assim eles viriam comprar nossa soja, porque eles não têm outra opção”, afirma ele.

Estados litorâneos como Rio de Janeiro e Bahia dominaram o Brasil por muito tempo. No século XX, a ascensão da São Paulo industrializada e a construção de Brasília como centro político, mudaram o foco da maior nação da América Latina.Agora, ele está mudando novamente, mais para áreas antes tidas como inacessíveis. Distante das crises econômicas que enfraqueceram centros como Rio e São Paulo, Mato Grosso representa uma fronteira em expansão que está tendo papel crucial na moldagem do futuro da nação.

Sua ascensão também está mudando a própria ideia de Brasil. A euforia da primeira década do milênio - quando o crescimento vertiginoso proporcionado pelo “boom” das commodities transformou o país num queridinho internacional - acabou há muito tempo. A criminalidade e a pobreza aumentaram.A corrupção continua enraizada e as instituições democráticas frágeis. Bolsonaro, um ex-capitão do exército com atitudes frequentemente vulgares, tem muito apoio em casa, mas sua retórica sobre o ambiente e os direitos humanos vem lenta, mas consistentemente, transformando o país em um pária internacional.

Com a nação em meio a uma crise de identidade, aqueles que vivem e trabalham em Mato Grosso advogam uma narrativa diferente. Suas fronteiras terrestres oferecem uma história de esperança e oportunidades. “É um novo Brasil que nem mesmo os brasileiros conhecem”, diz Francisco Olavo Pugliesi de Castro, da Famato, entidade que representa agricultores do Estado.

A BR-163 divide o Brasil ao meio, indo, com poucas interrupções, do Sul ao Norte. Em Mato Grosso, a rodovia segue praticamente em linha reta, de modo que dirigir deveria ser uma coisa simples. Mas não é. Um fluxo sem fim de caminhões articulados disputam a supremacia sobre a via com uma frota de picapes brancas - um símbolo de sucesso para os fazendeiros ricos da região.

Surpreendentemente, o alvoroço morre a minutos da rodovia. Se você virar para leste ou oeste, vai se deparar com terras cultiváveis enormes, planas por centenas de quilômetros. Nos cantos remotos do Estado vivem comunidades indígenas, em terras demarcadas que são cobiçadas por aqueles que eles chamam de kajaiba (o “homem branco”).

A estrada de pista simples é uma peça de infraestrutura vital - ainda que aflitiva - que permite aos reis da soja do Brasil escoar seus produtos para o mundo exterior. Liga cidades mato-grossenses em crescimento como Sinop, Sorriso e Nova Mutum, a Cuiabá, no Sul, e às artérias fluviais do Amazonas, quase 1.000 quilômetros ao norte.

Conheci Pozzobon em Lucas do Rio Verde, uma cidade habilmente planejada que está hoje entre os municípios mais desenvolvidos do Brasil. Lucas, como é mais conhecida pelos moradores locais, aproveitou com sucesso seu crescimento vertiginoso nos últimos anos e seus investimentos em educação e serviços municipais. O desafio para as autoridades locais é gastar o dinheiro dos impostos com rapidez suficiente para acompanhar o crescimento da população.

“É um outro Brasil aqui”, diz Pozzobon. E isso apesar da covid-19 e seus reflexos negativos sobre a economia em geral. “Na pandemia você deixa de fazer muitas coisas, mas não para de comer”. Respondendo por 22% do PIB, o sucesso da agricultura é um dos raros pontos luminosos num país cujos setores industrial e de serviços ainda lutam para se recuperar da devastadora recessão de cinco anos atrás.

Fernando Tadeu de Miranda Borges, professor de economia da Universidade Federal do Mato Grosso, não vê sinais de recessão. “Mato Grosso conduzirá o desenvolvimento econômico do Brasil”, diz ele, embora alerte que o sucesso depende da manutenção de relações diplomáticas e comerciais, especialmente com a China, que Bolsonaro frequentemente provoca com piadas e troca de farpas.

Os “booms” agrícolas fazem parte da história brasileira desde a chegada dos primeiros exploradores portugueses, em 1500. Mas ocorrem, em sua maior parte, em terras ricas, já ideais para a produção agrícola, e em áreas relativamente próximas do litoral do país e com acesso a portos e logística. Mato Grosso não tem nada disso.

Até o fim do século XX, o vasto Cerrado que domina a maior parte de Mato Grosso era considerado ruim para a agricultura. Isso mudou com os avanços tecnológicos como a modificação genética de culturas e os novos métodos de fertilização do solo, que abriram as terras para a produção de grãos.

E esse processo foi alavancado pela ascensão da China. Com a demanda por carne disparando na segunda maior economia do mundo, o mesmo aconteceu com a demanda por matérias-primas como a soja, necessária para alimentar os animais de corte.Nos últimos dez anos o Brasil aumentou sua produção de soja de 75 milhões de toneladas para mais de 130 milhões, ultrapassando os EUA e se tornando o maior produtor mundial. A produção de milho quase dobrou, para 105 milhões de toneladas.

Mesmo assim, para os habitantes das grandes cidades brasileiras, Mato Grosso continua sendo uma ideia distante, conhecido mais por seu clima escaldante do que como um motor emergente da economia da nação. Para alguns mato-grossenses, há uma indignação silenciosa com o fato de seus 3,5 milhões de habitantes não receberem o devido reconhecimento por suas conquistas. “Já somos maiores que São Paulo em termos de PIB agrícola”, diz Mauro Mendes, governador do Estado, em seu gabinete na capital Cuiabá. “E ainda há muitas fronteiras a explorar”.

A duas horas ao norte de Lucas do Rio Verde, pela BR-163, encontra-se a cidade de Sinop. Com mais de 150 mil habitantes e crescendo, Sinop é o modelo do desenvolvimento urbano na região, com amplas avenidas e praças bem-cuidadas. “Ainda não somos como São Paulo em termos de teatros e entretenimento, mas estamos felizes em constatar o progresso e o desenvolvimento”, diz Angelo Carlos Maronezzi, que comanda um centro de pesquisas agrícolas. “Viver aqui é muito gratificante porque há muitas oportunidades”.

Há 50 anos, essa parte de Mato Grosso era dominada por uma mistura de floresta e matagais, em sua maior parte sem a presença humana. Encorajadas pelos governos militares, obcecados com o desenvolvimento dos territórios distantes, ondas de migrantes do Sul começaram a chegar nas décadas de 70 e 80, com frequência descendentes de alemães, italianos e imigrantes do Leste Europeu.

Essa é uma história contada em todas as esquinas de Sinop. Na prefeitura, há fotografias desses “colonizadores” da década de 70, juntamente com imagens em branco e preto de grandes tratores derrubando a vegetação nativa - cenas que, hoje, causariam indignação. “Pegamos um Estado que não valia nada, uma terra que não valia nada e a domamos com tecnologia e métodos de fertilização”, diz Maronezzi, que se mudou para o Mato Grosso em 1992, vindo do Sul.

A positividade é algo comum entre os moradores que conheci em minha visita ao Estado, especialmente em Sinop e Sorriso, onde as ruas são dominadas por grandes casas com portões, evocando mais Miami do que uma parte distante do Brasil. As reclamações são poucas e dispersas, mas, quando pressionado, Ícaro Francio Severo, um vereador de Sinop, diz que o município sofre de problemas com a rede de esgoto e com o excesso de burocracia.

“Quando chegamos, tudo estava acontecendo, tudo estava crescendo. Ficamos encantados”, diz Glaucia Regina Santos, dona de um restaurante de beira de estrada na BR-163. À primeira vista, Glaucia parece porta-voz improvável desse novo Brasil. “Mato Grosso significa sucesso”, diz ela, enfatizando as oportunidades para os jovens em termos de trabalho e estudos nas numerosas universidades da região - Sinop tem sete.

O orgulho local não é a única coisa que une aqueles que procuram as fronteiras agrícolas do Brasil. Eles também acreditam em Bolsonaro. O presidente venceu as eleições de 2018, aproveitando a onda de descontentamento popular com a corrupção. Desde então, seu governo tem sido marcado por tentativas tímidas de reforma econômica, disputas políticas copolíticas constantes e críticas internacionais, especialmente por causa da destruição da floresta amazônica. Para os observadores de fora, Bolsonaro carrega similaridades com Donald Trump em seu populismo e uso de uma linguagem incendiária.

Mas, enquanto a mensagem de Trump ressoou em grande parte em parcelas economicamente marginalizadas dos EUA, Bolsonaro encontra simpatia entre os produtores e comunidades mais ricas, que aplaudem suas atitudes mais pragmáticas em relação aos negócios, depois de anos de governos de esquerda. Bolsonaro conseguiu 66% dos votos em Mato Grosso nas eleições de 2018. Mas seu grau de aprovação no próspero cinturão agrícola ao norte da capital Cuiabá é bem maior. Mais de 77% dos moradores de Sinop apoiaram o homem que chamam de “mito”. Sorriso, que se autodenomina “a capital brasileira da agricultura”, reporta números parecidos.

O rosto do presidente é onipresente em outdoors em toda a região, graças à dedicados grupos locais. Quando ele visitou Sorriso e Sinop, recentemente, foi cercado por simpatizantes. “Você deveria ter visto ele aqui. Foi logo de cara para a multidão para abraçar as pessoas”, diz Severo, o vereador de Sinop. “E ele valoriza o agronegócio. Acabou com muita burocracia, acelerou os investimentos e direcionou dinheiro para o setor. Também agradou fazendeiros, defendendo-os na questão ambiental, protegendo-os daqueles da esquerda que dizem que eles estão destruindo a Amazônia.”

E não é só financeiramente que Bolsonaro se conecta com os moradores da região: ele também compartilha de sua fé. Assim como a maior parte do Brasil rural, Mato Grosso continua sendo profundamente religioso, mas a composição dos fiéis vem mudando. Nas últimas duas décadas - paralelamente ao renascimento econômico -, o Estado esteve à frente de fenômeno que varreu o Brasil: a ascensão das igrejas evangélicas.

O próprio Bolsonaro continua oficialmente católico, mas ele ganhou o apoio do movimento evangélico quando foi batizado por um pastor no rio Jordão em Israel, dois anos antes de concorrer à presidência. Foi uma manobra astuta. Se a atual tendência persistir, a maioria dos brasileiros deverá estar se identificando com os cristãos evangélicos até 2030.

Essas mudanças já são bem claras em Mato Grosso. Em 2000, os evangélicos representavam 16% da população do Estado - um número que saltou para 25% em 2010. O censo de 2020 foi adiado por causa da pandemia, mas pesquisas regionais sugerem que um número maior do que 30% dos habitantes do Mato Grosso já são evangélicos.

“O que faz Sorriso prosperar é a religião. Noventa por cento da prosperidade vem da religião”, diz Cristiane Silva Paulino Rodriguez, uma moradora da cidade. Bruno Mendes dos Santos, pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus em Sorriso, diz que as igrejas são importantes na manutenção de um senso de comunidade e responsabilidade nessas cidades fronteiriças. “Religião é união”, diz ele quando eu pergunto sobre o papel da fé em cidades como Sorriso.

Bolsonaro também ganhou pontos na região por dar atenção ao que ela mais precisa do governo federal: investimentos em infraestrutura. No ano passado, seu governo conseguiu asfaltar a BR-163 até o porto de Miritituba, no Pará, o que significa que agora os produtores rurais do Mato Grosso podem usar os rios caudalosos da floresta tropical para escoar seus produtos para o mundo. Ele também defende a construção de ferrovias que cruzariam o Mato Grosso.

Os planos encontraram a oposição de grupos indígenas, que perderiam para esses projetos partes de suas terras supostamente protegidas. Mas para os fazendeiros da região, é um próximo passo inevitável do desenvolvimento. Apesar de toda a importância da BR-163, as distâncias no Brasil são simplesmente grandes demais para o transporte rodoviário ter sentido econômico ou ambiental.

Com a população mundial devendo alcançar 10 bilhões nos próximos 30 anos, os produtores rurais de Mato Grosso deverão ter retornos ainda maiores. Mas a proliferação das superfazendas brasileiras tem um preço. Entre 2009 e 2019, quase 14 mil quilômetros quadrados de florestas nativas foram destruídos em Mato Grosso - uma área do tamanho do Estado de Connecticut e a segunda maior taxa de desmatamento do Brasil, perdendo apenas para o Pará.

“O Estado do Mato Grosso comprometeu-se em reduzir o desmatamento durante a conferência de Paris sobre as mudanças climáticas, em 2015... e o governo do Estado aumentou o número de inspeções e os cumprimentos de embargos, o que é positivo”, diz Cristiane Mazzetti do Greenpeace no Brasil. Mas, mesmo assim, o desmatamento em Mato Grosso voltou a crescer em 2020. “O governo federal sinaliza rotineiramente que os crimes ambientais serão tolerados. E para piorar as coisas, o governo ainda prevê cortes significativos no orçamento deste ano para inspeções e combate a incêndios e o desmatamento”, afirma ela.

A destruição do Estado começou décadas atrás, quando a política “desenvolvimentista” dos generais tentou unir o Brasil com a construção de cidades e rodovias como a BR-163. Mas a destruição continua sob Bolsonaro, cuja retórica de apoio aos produtores rurais, garimpeiros e madeireiros vem sendo interpretada como sinal verde para derrubar florestas.

Renato Farias, diretor do Instituto Centro de Vida, um grupo de sustentabilidade baseado em Mato Grosso, diz que a discussão sobre o desmatamento ilegal é delicada - é como “ir contra o próprio patrimônio”. Farias abraça uma ideia que vem ganhando a simpatia de políticos e agricultores brasileiros, que afirmam que com novas tecnologias e técnicas sustentáveis o Brasil poderá dobrar sua produtividade agrícola sem precisar derrubar mais florestas.

No longo prazo, as questões ambientais poderão se mostrar a ruína de Mato Grosso. Cientistas acreditam que se o desmatamento da floresta amazônica continuar além de um certo “ponto crítico”, os padrões climáticos que dão suporte à agricultura - e à indústria - na América do Sul mudarão de forma rápida e dramática.

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