Por Marcella Cunha, diretora executiva da ABOL
Na semana seguinte às eleições, as atenções se voltam para a transição de gestão pública dentro do mesmo Governo, às novas perspectivas para a economia brasileira e aos caminhos que poderão ser adotados pelos diferentes setores nos próximos anos. Na logística, esse momento reforça a importância de agendas de curto, médio e longo prazos, capazes de ampliar a competitividade do país, atrair investimentos e garantir maior eficiência às cadeias de abastecimento.
Em agosto, a ABOL apresentou às coordenações das campanhas presidenciais quatro prioridades para os Operadores Logísticos nos próximos quatro anos: desenvolvimento da multimodalidade como política pública de Estado; aprimoramento do ambiente regulatório e tributário; gestão nacional sobre a escassez de mão de obra; e descarbonização. São temas que precisam avançar de forma integrada e contínua, independentemente de partido político.
A relevância desses eixos é demonstrada pelos números do segmento. Segundo o “Perfil dos Operadores Logísticos no Brasil 2026”, estudo encomendado pela ABOL a cada dois anos, o mercado faturou R$247 bilhões em 2025, o equivalente a quase 2% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Os OLs também contribuem para a geração de aproximadamente 2,8 milhões de empregos diretos e indiretos e para uma arrecadação tributária ao erário de R$57 bilhões.
Um dos principais desafios é aprofundar a integração entre rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos. O levantamento mostra que 94% dos OLs atuam no modal rodoviário e que o aéreo é o segundo mais utilizado, somando 29% (entre atividades nacionais e internacionais). Os dados também revelam que apenas 31% oferece serviços multimodais e que apenas 20% das mercadorias movimentadas passam por dois ou mais meios de transporte na mesma operação.
Os investimentos previstos pelo governo federal para 2027 a 2030 representam uma oportunidade de avançar nessa integração. Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos (Mpor), a carteira anunciada em outubro reúne cerca de R$ 160 bilhões para projetos em portos, aeroportos e hidrovias, incluindo leilões, autorizações para empreendimentos privados e obras da União.
A iniciativa se soma às diretrizes do Plano Nacional de Logística (PNL 2050), lançado pelo Ministério dos Transportes em agosto, que estabelece premissas de longo prazo para a infraestrutura e contempla 31 eixos de transporte e 112 metas de atuação.
O volume de recursos é importante, mas os resultados dependerão da articulação entre as iniciativas e da capacidade de eliminar gargalos. Devemos tratar a multimodalidade como política pública permanente, com planejamento, governança e previsibilidade para que o sistema de transportes funcione de maneira integrada e ajude a reduzir custos logísticos.
A modernização do ambiente regulatório e tributário também será determinante. Com a implementação da Reforma Tributária, é fundamental acompanhar os impactos das novas regras e garantir segurança jurídica, simplificação de obrigações e condições adequadas para os diferentes modais. Ao mesmo tempo, incentivos à inteligência artificial, automação, robotização e digitalização podem acelerar ganhos de produtividade e eficiência.
Essa transformação deve andar junto com a formação de profissionais. A escassez de mão de obra, que afeta funções operacionais e especializadas, demanda uma atuação coordenada entre poder público, empresas e instituições de ensino. Por isso, a ABOL defende uma Política Nacional para o Futuro do Trabalho na Logística, com iniciativas de qualificação e requalificação alinhadas às novas exigências do setor.
O conjunto de propostas inclui ainda a transição energética e a adaptação da malha logística às mudanças climáticas. O avanço depende de incentivos a combustíveis de menor intensidade de carbono, financiamento de veículos e equipamentos de menor consumo e planejamento para reduzir os impactos de eventos extremos sobre os serviços.
Esperamos que o próximo governo reconheça a logística como uma agenda estratégica e transversal, essencial ao desenvolvimento econômico. Mais do que anunciar recursos, será necessário assegurar continuidade às obras e programas, definir metas de longo prazo e estimular a integração entre os modais, com planejamento e segurança jurídica para estimular investimentos e ampliar a competitividade.
A ABOL seguirá apoiando a discussão com estudos, dados e propostas. Nosso objetivo é colaborar para um ambiente de negócios mais previsível, mais agilidade e ecossistemas preparados para os desafios econômicos, tecnológicos e ambientais.
Fortalecer a logística brasileira é tornar o país mais competitivo. Essa deve ser uma meta permanente, capaz de atravessar ciclos políticos e gerar resultados duradouros para toda a economia.