06/03/2025

Investimento em infraestrutura ruma para melhor ano em uma década

 Investimento em infraestrutura ruma para melhor ano em uma década



Mesmo em meio a um ciclo de aperto monetário que deve alçar a Selic a 15%, patamar não visto desde 2006, os investimentos em infraestrutura continuaram avançando em 2024 e devem se manter aquecidos em 2025, na esteira das inversões já contratadas pelas licitações dos últimos anos e também pela manutenção da onda de leilões. Esta retomada, inclusive, pode devolver o dispêndio no setor a um patamar não visto no país desde a primeira metade da década de 2010, quando os gastos nesta rubrica superavam 2% do PIB.


Nos cálculos da consultoria Inter B, o investimento em infraestrutura no país deve ter alcançado 1,87% do PIB no ano passado, maior patamar desde o 1,94% registrado em 2016. Já a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) estima que o investimento alcançou 2,22% do PIB no ano passado, ou R$ 259,3 bilhões. Se confirmado, será superior ao recorde recente alcançado em 2014, quando chegou a R$ 239,7 bilhões.


"Os investimentos como proporção do PIB vêm em crescente desde 2021, e em um período em que o PIB cresceu 3% ou mais. Então este não é um movimento desprezível", salienta Roberto Guimarães, diretor de Planejamento e Economia da Abdib.


Em sua avaliação, há inclusive alguma chance de que essa proporção cresça em 2025. Enquanto o gasto no setor deverá se manter aquecido - a Abdib projeta alta de 11,14%, para R$ 288,2 bilhões, este ano -, a maioria dos analistas espera uma expansão do PIB em torno de 2% neste ano.


No curto prazo, o avanço dos investimentos privados é garantido pelas licitações dos últimos anos, cujos contratos estão em fase de obras só agora. “O investimento alto de hoje é fruto da quantidade elevada de leilões que ocorreram em vários setores. Isso tem facilitado manter o investimento elevado em comparação com anos anteriores”, afirma Ewerton de Souza Henriques, sócio da SH Consultoria.


Como os contratos de concessão trazem um cronograma de obras obrigatório, as empresas precisam tirar os investimentos do papel, independentemente do cenário de juros ou de inflação de insumos dos anos seguintes.


O atual aumento de custo de capital pode impactar principalmente empresas que ainda não haviam fechado o financiamento dos projetos contratados, afirma Henriques. “Esses grupos devem encontrar mercados mais restritos, com taxas maiores e enfrentar oscilações de preços”, diz ele.


Já para novos leilões, a perspectiva é que os projetos se adaptem ao cenário macroeconômico, com atualização dos preços e possivelmente elevação das taxas internas de retorno dos contratos, para dar mais atratividade, segundo ele.


Ainda assim, a expectativa é que as licitações de novas concessões continuem saindo do papel. “Para 2025 o otimismo continua elevado. Há muitos leilões no pipeline, o volume pode até superar 2024, a não ser que o cenário continue se agravando”, afirma Eric Brasil, diretor da LCA Consultoria.


Para ele, hoje o investidor de infraestrutura é mais resiliente a crises de curto prazo. “É claro que o cenário tem impacto e pode afastar investidores. Mas hoje o ambiente regulatório do país é mais sólido, os contratos têm diversos mecanismos de compartilhamento de riscos, que deixam investidores mais tranquilos em relação a alguns riscos que antes eram totalmente alocados ao privado. O país também evoluiu muito em termos de segurança jurídica. Tudo isso deixa o contrato menos sensível a condições menos favoráveis”, diz.


Henriques também avalia que os leilões seguirão atraindo interesse, mas com menos competidores. Esse cenário, segundo ele, cria um risco de propostas construídas em bases mais incertas, que no futuro podem gerar problemas.


“Hoje há uma incapacidade de leitura do que vai acontecer no curto e médio prazo, por exemplo, em relação ao preço de insumos. E aí o problema de projetos com pouca disputa é a falta de comparação de propostas, de validação dos preços, em um cenário em que pode haver ofertas mais arriscadas”, afirma.


Para Nelson Barbosa, diretor de planejamento e relações institucionais do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o cenário de curto prazo de juros não necessariamente afeta os leilões deste ano, porque o que importa mais é a curva de médio e longo prazo.


Ele afirma que o cenário pode afetar as ofertas dos investidores, mas que o interesse se manterá. “O mercado se ajusta pelo lance que eventualmente é feito. Mas há um potencial muito grande de aumento de produtividade nessas concessões, de redução de custos, aumento de demanda. Então os juros temporariamente mais altos não inviabilizam esses projetos. O que temos visto é uma diversificação dos potenciais investidores, com novos entrantes. Há interesse em investir em infraestrutura”, diz.


Analistas avaliam, no entanto, que o que tornou possível esse novo momento foram mudanças estruturais que fortaleceram o investimento privado desde o último boom, quando as grandes obras públicas eram tocadas pelas maiores empreiteiras do país.


"Desde a Operação Lava-Jato, que secou a fonte de financiamento público, houve uma série de transformações que permitiram o investimento privado e novos atores privados entrarem", diz André Kimura, diretor da Kearney no Brasil. "Houve uma melhora muito grande do arcabouço de concessões, marcos regulatórios como o do saneamento básico, de segurança jurídica e outras barreiras que preveniam o capital privado de aparecer."


Em 2014, a fatia da inversão em infraestrutura do setor privado era de 60%. No ano passado, chegou a 76%, de acordo com estimativa da Abdib.


Outro ponto importante é o impulso trazido pelo novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), diz Kimura. "São investimentos em diversos eixos, muitas concessões saindo nos últimos dois anos e muitos projetos em estruturação. Não apenas em nível federal, mas também estadual e municipal, infraestrutura social, equipamentos de lazer... Então, apesar dos desafios, é um bom momento.


Ele ressalta a postura pró-concessão das próprias agências regulatórias e cita como exemplo o uso experimental do modelo "free flow" na rodovia Rio-Santos, administrada pela CCR, algo que deve ajudar a formatar melhor o arcabouço regulatório do instrumento e melhorar a qualidade dos próximos contratos de concessão.


"É algo que antes não se vislumbrava. Até algum tempo atrás, a agência era onde a empresa ia chorar pedindo reequilíbrio do projeto. Agora, vemos uma colaboração maior.”


Apesar desse cenário, os números ainda seguem aquém do considerado necessário para cobrir a depreciação do capital. No cálculo da Abdib, a distância entre o investimento realizado e o necessário em 2024 chegou a R$ 266 bilhões, ou 2,27% do PIB. Sozinha, a área de transportes e logística representa 1,72 ponto porcentual (p.p.) desse montante, ou R$ 201,4 bilhões. Em seguida, vêm os setores de telecomunicações (R$ 45,9 bilhões, ou 0,0,29 p.p.) e saneamento (R$ 18,7 bilhões, ou 0,16 p.p.)


A seca de quase uma década em investimentos em infraestrutura também fez com que muito da competência necessária para avaliar e colocar em andamento projetos em volume ou tamanho tenha minguado, diz a consultoria. Em especial, a mão de obra do setor de infraestrutura, antes concentrada nas grandes construtoras, acabou migrando para outros países ou foi buscar emprego em outros setores.


"É uma tendência que começa a ser revertida agora, estamos observando alguns profissionais voltarem à engenharia. Mas o fato é que essa mão de obra está sendo recontratada com um prêmio, porque o setor também não desenvolveu em paralelo uma massa nova de engenheiros", afirma Fabio Yoshitome, sócio da Kearney.


A situação se parece com a de 2014, quando havia muita demanda e pouca mão de obra. Mas repete outros ciclos, segue o consultor. “Não à toa, é comum ver os "cabeças brancas", engenheiros do ciclo de infraestrutura do período da ditadura militar, ainda trabalhando nessas empresas, sinal de que a mão de obra não foi renovada.”


Pesa, nesse sentido, o fato de que o Brasil também não teve grandes casos de sucesso de empresas de engenharia estrangeiras, o que fez com que esse gap não tenha sido preenchido.


"Imaginou-se, em 2016, que o buraco deixado pelas grandes empreiteiras seria ocupado por empresas de fora. Mais recentemente, vimos uma incursão de empresas chinesas, mas mesmo estas não alcançaram as expectativas”, pondera Kimura. “O fato é que o Brasil tem um ambiente macroeconômico e regulatório difícil de operar. Existe toda uma relação com o poder público que é muito peculiar.”


Essa falta de expertise, avaliam, se traduz em uma cultura que não privilegia planejamento desde o início. Cronogramas realistas, identificação de gargalos e ações para mitigar riscos acabam sendo deixados de lado, até por uma preferência em poupar recursos no começo do ciclo de vida do empreendimento.


As empresas mais bem-sucedidas são aquelas que planejam antes. Aquelas que também têm interesse em buscar alternativas tecnológicas de métodos alternativos, não focar apenas no que mandam os cadernos de concessão, afirma Yoshitome. "Além disso, o mercado de fornecedores no Brasil hoje é mais fragmentado, é diferente do que existia naquele último grande ciclo de investimento."


Um estudo recente do Tribunal de Contas da União (TCU) com uma seleção de obras ligadas ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) mostrou que 43% ultrapassaram o prazo inicial previsto em três vezes. Dentro dessa amostra, 30% tiveram aumento de custo de até 25%, e 18%, superior a 25%.


Segundo um estudo realizado pela Kearney em todo o mundo, o momento em que isso se torna visível é o estouro de custos ou prazos. Falhas comuns associadas ao primeiro são os problemas de complexidade contratual e de permissões e consentimentos, bem como questões "externas" às empresas, como atraso das autoridades e mudanças na legislação.


Já em relação aos estouros de prazo, o mesmo levantamento mostrou que os principais problemas são relacionados a dificuldades relacionadas ao empreiteiro contratado, permissões e consentimentos e mudanças de design.


Fonte: Valor Econômico



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