09/03/2022

Guerra traz riscos de custos e abastecimento a setor automotivo

 Guerra traz riscos de custos e abastecimento a setor automotivo


Após dois anos de pandemia, a indústria automotiva ainda não conseguiu superar totalmente os impactos na cadeia de suprimentos e já vislumbra uma nova onda de potenciais problemas com a guerra na Ucrânia. Para a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), ainda é cedo para mensurar as consequências do conflito, mas há uma

“\A guerra] traz impactos diretos e indiretos. Estamos tentando entender a dimensão do problema e esperando que não seja tão grave, que esse conflito seja solucionado em um curto espaço de tempo”, afirmou Luiz Carlos Moraes, presidente da associação.

A primeira preocupação é o efeito no preço de commodities (como petróleo, aço, alumínio etc), que já estão em patamar elevado, o que vêm pressionando os custos da indústria em geral.

Além disso, o conflito poderá voltar a agravar os problemas da cadeia logística global, que desde o início da pandemia convive com falta de contêineres, atrasos em viagens e fretes elevados. “São problemas que esperávamos ver equacionados ao longo de 2022. \[Com a guerra], devem continuar fazendo pressão sobre os fretes marítimos e no frete aéreo, , que o setor tem usado para antecipar entregas de semicondutores e componentes”, diz ele.

O próprio abastecimento de semicondutores é uma preocupação - o item já tem sido um limitador para a produção do setor. “Determinadas matérias-primas para a produção de semicondutores são produzidas na Rússia e na Ucrânia \[como paládio e gás neônio]”, explica Moraes.

Por fim, há uma apreensão sobre o efeito de toda essas altas de custos sobre as taxas de juros no Brasil. “Já temos economistas sinalizando que Selic pode ir para 13%, 14%. Esperamos que o Banco Central tenha atenção na calibragem da taxa de juros, porque não é inflação de demanda, é uma inflação estrutural, trazida por elementos de fora. Estamos muito preocupados, porque isso pode impactar negativamente a atividade econômica, principalmente no segundo semestre”, afirmou.

O setor começou 2022 em queda, tanto na produção quanto nas vendas. Em fevereiro, a indústria produziu 165,9 mil unidades, o que representa retração de 15,8% na comparação anual, segundo dados da Anfavea divulgados ontem. No acumulado do primeiro bimestre, o recuo é de 21,7%. As vendas no mês caíram 22,8%, com 129,3 mil veículos licenciados. No bimestre, a queda é de 24,4%. Apenas as exportações avançaram neste ano, 25,4% em fevereiro e 17,3% no bimestre.

Mesmo com os resultados negativos e as preocupações quanto à guerra, a associação avalia que é cedo para rever suas projeções para 2022. No início do ano, a entidade divulgou uma estimativa de aumento de 9,4% na produção, na comparação com 2021. Também há projeção de um avanço de 8,5% de vendas no mercado interno e de 3,6% nas exportações.

Para Moraes, ainda não há elementos suficientes para rever as previsões, que foram feitas já com visão relativamente conservadora. “Já planejamos um primeiro semestre mais baixo por conta da restrição de semicondutores, imaginando que no segundo semestre possa haver uma restrição menor. Também já consideramos uma taxa de juros em patamar alto. Então ainda não temos elementos para uma revisão. Todo mundo está tentando entender a dimensão da crise, os efeitos na cadeia de fornecedores. Vamos esperar um pouco mais”, disse.

Em compensação às crises, a indústria automotiva teve uma vitória importante em fevereiro, com a redução de 18,5% do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) pelo governo federal.

A Anfavea calcula um impacto potencial no preço final dos veículos de -1,4% a -4,1%. Moraes destaca que o repasse do desconto depende das estratégias individuais das empresas, que também têm sofrido com a alta de custos. Algumas companhias, como Ford, Toyota e Kia, já anunciaram novas tabelas.



Fonte: [Valor Econômico

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