11/02/2025

Brasil levará décadas para ter infraestrutura elétrica para o setor logístico, diz CEO da DHL

 Brasil levará décadas para ter infraestrutura elétrica para o setor logístico, diz CEO da DHL



O setor de transporte deve ter um papel fundamental na descarbonização da economia global. Com as entregas de insumos e produtos fazendo parte das atividades de quase todos os setores econômicos, empresas que administram a logística, como o caso da alemã DHL, serão centrais para governos e empresas atingirem as suas metas de zerar emissões em suas cadeias de produção.


A empresa atua no Brasil com três divisões. A DHL Express é especializada em remessas expressas, a DHL Supply Chain tem como foco a armazenagem, o transporte e a distribuição para empresas e a DHL Global Forwarding fica voltada a transportes internacionais de grandes volumes. Como presidente da DHL Supply Chain, o engenheiro Plínio Pereira tem grande responsabilidade em ajudar empresas de diversos setores a avançar na descarbonização de suas cadeias, e cumprirem as suas metas.


O desafio, no entanto, para o transporte, será financeiro, tecnológico e de infraestrutura. Mesmo assim, a DHL assumiu a missão de atingir a neutralidade completa de emissões até 2050. Apenas o desafio de estabelecer uma infraestrutura de carregamento de baterias ampla pelo território nacional deve levar décadas, segundo o executivo.


Leias os principais trechos da entrevista.


O quanto a questão da sustentabilidade ambiental é importante para a DHL?


Essa agenda já existe há algum tempo na empresa. Na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, fizemos entregas usando veículos elétricos na Vila Olímpica. É uma agenda muito importante para o grupo. Mundialmente, a DHL lançou no começo de janeiro a estratégia 2030, para os próximos cinco anos. E o nome da estratégia é “acelerando o crescimento sustentável”. A palavra “sustentável”, pela primeira vez, aparece no título da estratégia, e mostra a direção e para onde estamos indo. Como uma empresa alemã, esse tema está muito quente na Europa e faz parte da nossa visão de futuro.


E como isso se traduz na prática?


Temos ações tanto na área de armazenagem quanto na de transportes. Nos nossos centros de distribuição, a gente já tinha alcançado 90% de neutralidade de emissão de carbono, em dezembro de 2023. Nossa meta é chegar a 100% já no fim de 2025. Estamos conseguindo isso usando fontes de energia sustentável. Em alguns centros, temos energia solar gerada em painéis no telhado. Em outros, compramos do mercado. Sempre de fontes de energia renovável. Fazemos também a reutilização de água. Usamos iluminação LED, que consome menos energia. As coisas em armazenagem estão mais sob nosso controle. É factível alcançar a neutralidade.


Isso não acontece da mesma forma nas atividades de transporte?


O desafio em transporte, obviamente, é muito maior. Essa atividade é uma grande fonte de emissão de poluentes, e o desafio é enorme para zerar as emissões. Nós, como empresa, assumimos o compromisso de alcançar a neutralidade até 2050, com uma meta intermediária para atingir até 2030, que foi estabelecida em 2019. O setor é baseado em combustíveis fósseis. Existe uma parcela de transporte rodoviário, mas também uma parte enorme de transporte aéreo. No Brasil, já temos uma frota elétrica relevante, talvez a maior do setor, com 80 veículos comerciais, incluindo caminhões e vans. Em 2023, também lançamos veículos refrigerados elétricos, para levar cargas como medicamentos. É um desafio de tecnologia grande fazer as baterias movimentarem os veículos e ainda refrigerar a carga.


Esses 80 veículos elétricos representam quanto da frota inteira?


Na nossa frota própria, temos mais de 500 veículos. E, incluindo a terceirizada, são mais de 10 mil veículos rodando diariamente com a carga dos clientes. Já cerca de 20% da frota própria é elétrica. Mas, quando se olha para o volume transportado, é uma fatia ainda pequena. A questão envolve uma combinação da questão financeira, porque o transporte por elétricos ainda é mais custoso, mas também uma questão de tecnologia. Os veículos elétricos ainda têm autonomia pequena. Eles não podem ser usados em longas distâncias. E também não têm grande capacidade de carga. Enquanto um veículo tradicional pode levar 20 toneladas, o nosso maior veículo elétrico tem capacidade de sete toneladas.


Então, será preciso resolver a questão tecnológica, antes mesmo de esperar uma solução financeira?


Depende da tecnologia, mas também da infraestrutura do País. Hoje, existem pouquíssimos pontos de carregamento de bateria elétrica. Precisamos de postos de carga, assim como a gente tem postos de combustível. Sem isso, não funciona. Alguns países da Europa estão bem mais avançados, com pontos de carga espalhados. Aqui, no Brasil, a gente tem o desafio de ser um país muito grande. Preparar esta malha para compreender todo o País não vai acontecer do dia para noite. Será um processo gradativo, que vai demorar muitos anos. Na verdade, até algumas décadas. Mas estamos dando os primeiros passos.


A descarbonização que parece mais distante da realidade atual parece estar no transporte aéreo. Quando os voos poderão ser menos poluentes, utilizando combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês)?


O transporte aéreo é um grande emissor de poluentes. Proporcionalmente, muito maior do que todos os outros modais de transporte. O combustível verde está começando a ser consumido no Brasil, mas tem um custo altíssimo. Como referência, ele custa, em média, cinco vezes mais do que o combustível comum de aviação. E o combustível é o principal componente de custos da aviação. Então, esse é um desafio econômico gigante. As empresas adorariam adotar só o combustível verde. Mas isso implicaria num aumento de custos para toda a cadeia. É um desafio global. Existe um longo caminho pela frente para a redução de custos do combustível e para as próprias aeronaves ganharem eficiência.


Qual o potencial de o Brasil ajudar nessa agenda global?


O futuro não passa por uma única fonte de energia. Não será somente eletrificação. Haverá uma combinação de diversos tipos de tecnologias e de fontes de combustível. No Brasil, o etanol e o biometano já são realidades. O tão falado hidrogênio verde tem uma posição única para a produção no Brasil, por conta de termos uma matriz energética mais renovável.


Para o setor de transportes, o que deveria avançar nas discussões da 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30)?


Normalmente, nesses fóruns internacionais, são discutidas as questões regulatórias. A partir delas, são criados novos marcos e regulações para estimular o mercado. Mas, na prática, as empresas têm uma agenda em paralelo. A gente continua evoluindo em direção à sustentabilidade, independentemente do resultado desse ou de qualquer outro fórum. Existe uma estimativa de que, até 2030, o mercado de logística verde terá alcançado movimentação de US$ 350 bilhões (R$ 2 trilhões). É uma cifra enorme, que mostra que há muito potencial para as empresas que querem se engajar nessa agenda.


A ação de governos mais ajuda ou atrapalha nessa evolução sustentável?


Temos de pensar numa perspectiva global. A DHL tem presença em todos os continentes e na enorme maioria dos países. A nossa política é seguir a legislação local, mas temos as nossas próprias orientações, e sustentabilidade é parte-chave da nossa estratégia. O nosso compromisso é independente de governos e legislação. É uma soma em relação às legislações locais.


Os clientes pedem mais sustentabilidade nas entregas?


O setor industrial tem os seus próprios compromissos de sustentabilidade. Então, o setor de logística não tem uma agenda separada. Somos os agentes que viabilizam a redução de poluentes de todo o setor econômico que movimenta carga. Os atores da indústria e do varejo tem um trabalho em conjunto com a DHL, para que suas cadeias tenham, do ponto de vista de sustentabilidade, uma eficiência maior.


Os custos mais altos não impedem que mais clientes demandem entregas mais sustentáveis?


O nível de maturidade varia muito. Alguns setores estão muito mais avançados do que outros. A maturidade também tem relação com a origem do país da empresa, que pode vir de um local com práticas mais rigorosas de sustentabilidade. O tema, em geral, vem ganhando relevância. Estou há quase 20 anos atuando em logística e percebo esse aumento de importância. O tema é comum a todos os setores. Mas algumas empresas já definem parâmetros mínimos, no momento, de contratar serviços. Outras ainda estão na fase de discussão.


Quais setores estão mais avançados?


O setor de bens de consumo, como a indústria de higiene e cuidados pessoais, já faz uma pressão forte para adotar boas práticas de sustentabilidade. O setor farmacêutico também, com a reutilização de materiais. Os varejistas são outro setor avançado. A indústria e o varejo sofrem uma pressão do consumidor final. A empresa que hoje não tem nenhuma meta de redução de emissões ou compromisso com o meio ambiente vai sofrer resistência do seu consumidor, que quer ações reais, além do discurso.


Fonte: Valor Econômico



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