Uma combinação favorável de maior circulação das pessoas, mais renda disponível, e boa performance em transportes -principalmente de cargas -, impulsionou o volume de serviços prestados no país, que subiram 1,7% em março ante fevereiro.
Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de março. Foi a maior alta para o mês de toda a série histórica da pesquisa, iniciada em 2011, e levou a economia de serviços a uma expansão de 1,8% no primeiro trimestre, ante quarto trimestre de 2021.
Os números de março superaram as projeções - que apontavam alta de 0-,9% - e levaram alguns bancos e gestoras a melhorarem suas previsões para o crescimento da economia no primeiro trimestre e também para o crescimento no ano. Os serviços representa mais de 70% da atividade econômica brasileira.
Com o desempenho de março, os serviços também recuperaram a perda de janeiro (-1,8%) e alcançaram o maior patamar de produção desde maio de 2015. Além disso, a elevação em março também indica que o setor já opera 7,2% acima do patamar pré-pandemia (fevereiro de 2020).
O bom momento dos serviços reflete especialmente o desempenho de quem trabalha para empresas, segundo Rodrigo Lobo, gerente da PMS e economista do IBGE. O movimento dos serviços prestados às empresas, segundo ele, é puxado principalmente por atividades ligadas à tecnologia da informação e também à logística, dentro de transportes.
O que houve foi uma “demanda significativa” por serviços ligados à tecnologia da informação na pandemia, com busca por digitalização, armazenamento de dados em nuvem e segurança cibernética, por exemplo. Ao mesmo tempo, lembrou ele, o transporte de cargas foi favorecido pelo agronegócio.
Mas a boa performance não se concentrou somente em serviços às empresas. Houve aumentos nas cinco categorias pesquisadas pela PMS, como serviços prestados às famílias (2,4%); serviços e informação e comunicação (1,7%); serviços profissionais administrativos e complementares (1,5%); transportes, serviços auxiliares aos transportes e correios (2,7%) e outros serviços.
Em março, porém, serviços prestados às famílias foram a única atividade ainda sem retomar volume de antes da pandemia, com patamar 12% inferior a de fevereiro de 2020, impactada por inflação elevada, que inibe consumo. A melhor situação é dos serviços de transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio, 18% superior ao de antes da pandemia.
Para o economista Rodolfo Margato da XP, a leitura do resultado de março é de uma economia de serviços que mostrou “expansão generalizada”. Além de melhora na pandemia, com mais consumidores às ruas - e mais propensos ao consumo de serviços - Margato apontou outros fatores, como saque FGTS e antecipação de pagamento de 13º a aposentados. Essas rendas adicionais, juntamente com melhora em renda do trabalho, conduziram a um contexto mais favorável de consumo, avalia ele.
Após a PMS, a XP revisou para cima estimativa de alta para o PIB de 1º trimestre ante 4º trimestre de 0,9% para 1,1%. E, no caso de PIB de 2022, a projeção ainda é de aumento de 0,8%, “mas com viés altista”, segundo Margato.
O Credit Suisse revisou suas projeções do PIB do primeiro trimestre de 0,4% para 1,1%, citando resultados melhores do que o previsto no início do ano. O banco também mudou seu cenário para o PIB do ano: de 0,2% para 1,4%.
“O ponto é que a atividade tem se revelado melhor em 2022. A economia tem se mostrado mais resiliente”, afirmou a economista-chefe da SulAmerica Investimentos, Natalie Victal. A SulAmerica vai revisar a projeção da variação do PIB do 1º trimestre ante 4º trimestre de 2021, atualmente em 1%. Após a pesquisa, a casa aposta entre 1% e 1,5% para alta de PIB de 2022 - antes, era de 1%.
Thiago Xavier, economista da Tendências, concorda que há “resiliência” na economia no primeiro trimestre desse ano. Mas vê as estimativas de PIB com cautela. Ele notou que transportes foi o que impulsionou, de forma mais intensa, serviços em março.
“E transportes está na casa de 5% a 6% [do total da economia]”, disse. “Serviços no PIB é mais amplo do que serviços na PMS”, ponderou. Na prática, o especialista observou é que não é possível cravar que a magnitude da boa performance em serviços, na pesquisa do IBGE, seja reproduzida em igual intensidade no PIB.
Outro aspecto a ser consideradoo “combo” de incertezas políticas (com eleições) e macroeconômicas para os próximos meses, que preocupa e pode afetar negócios de serviços, acrescentou economista Rodolpho Tobler da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele pontuou que o consumidor, nos próximos meses, terá que lidar com inflação ainda pressionada e juros altos - dois fatores que inibem consumo. “Mas é possível dizer que serviços, em março, voltou ao caminho de recuperação que estava no fim de 2021”, afirmou.
Fonte: Valor Econômico