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Brasil precisa de ‘impulso sustentável’ para atrair investidor

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Enquanto Estados Unidos, União Europeia, Rússia e China travam suas disputas geopolíticas, a América Latina, incluindo o Brasil, precisa tomar consciência de quem é e do que deseja para conseguir alcançar uma relação de equilíbrio com todos esses atores. Antes mesmo da pandemia, que tem penalizado especialmente a região, as baixas taxas de investimento nos países latino-americanos já eram um problema. Se o Brasil quiser atrair capital, estrangeiro ou doméstico, vai precisar de um “impulso para a sustentabilidade”.

A avaliação é de Carlos Mussi, diretor do escritório no Brasil Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada à ONU. Segundo Mussi, a “grande disputa” sobre a região se dá em relação a seus recursos naturais. De um lado, a China demonstra bastante interesse por eles e também por investimentos na cadeia de infraestrutura. O gigante asiático tem se voltado muito, porém, para a África, o que é um “ponto de alerta” aos latino-americanos, diz Mussi.

Além disso, continua ele, a China trabalha para melhorar sua produtividade em termos de alimentos - uma importante área de exportações para o Brasil - e de seus recursos naturais próprios.

Por parte dos EUA e da Europa, os investimentos são “muito mais na recuperação da nossa indústria e serviços e também algo na infraestrutura”, diz Mussi. “O que temos que ver aqui é a questão de transferência tecnológica e geração de capacidades no Brasil. Temos um parque industrial razoável, mas estamos em um momento sensível, com grandes empresas saindo.”

A América Latina tem aparecido como a região mais impactada pela covid-19, em termos de mortes proporcionais à população, observa Mussi. “A lição foi que esse menor rigor com o isolamento teve seus custos”, afirma. A chegada de vacinas em boa parte dos países também foi atrasada, segundo ele.No papel, em que “se aceita muita coisa”, a oferta de doses programadas para a região está maior, mas a própria Organização Mundial da Saúde tem alertado para a concentração de vacinas nos países mais desenvolvidos, nota Mussi.

“A vacinação não pode ficar restrita àqueles grupos prioritários iniciais que se falava no início da covid. Para alcançarmos um nível de segurança, vamos ter que ampliar bastante”, afirma o economista, observando que a região tem média de 15% a 20% de população vacinada, com algumas exceções, como o Chile, que está mais avançado.

Pelos exercícios da Cepal, a ideia é que o Brasil estaria no início de 2022 ou, talvez, fim de 2021 com um significativo número de pessoas imunizadas. “Isso em um cenário de boas ofertas e chegadas de vacina. Mas é quase previsão de tempo sem o satélite lá em cima”, compara Mussi.

A Cepal ainda aguarda as divulgações de dados relativos ao Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de alguns países para promover sua revisão de cenários. A última projeção para o Brasil, do fim do ano passado, era de alta de 3,7% em 2021. Com indicadores até o momento surpreendendo para cima, “certamente, será um número maior”, diz Mussi. Um dos desafios, porém, é entender quais serão os efeitos concretos do ciclo de commodities, aponta ele.

Com a desestruturação de certas linhas de comércio no Mercosul nos últimos anos, os efeitos de uma retomada mais forte e/ou uma pandemia mais grave no Brasil sobre seus vizinhos ficam mais limitados, segundo Mussi. Ainda assim, o mercado de consumo brasileiro é “extremamente atrativo”, por exemplo, para a indústria argentina. “Uma recuperação brasileira forte, que possa refletir em aumento de importações, vai ter reflexos na América Latina”, afirma. Além disso, quando o Brasil cresce, “é um sinal bom” para toda a região, em termos de investimentos, diz ele.

A Cepal tem defendido como fundamental que esses investimentos tenham “graus de sustentabilidade”, o que não se refere apenas à questão ambiental, mas também a eficiências sociais e econômicas, explica Mussi.

A discussão que vai se impor, na visão da comissão, é sobre “estilos de desenvolvimento”, abordando reflexões já conhecidas a respeito de estrutura produtiva, inovação, demanda e o papel do Estado, mas incorporando, agora, um terceiro eixo, o da sustentabilidade.

Os desafios do Brasil não fogem muito dessa fórmula, segundo o economista. “Primeiro, incrementar sua produtividade e diversificação produtiva. Segundo, atuar na questão social, ou seja, como dar aspectos distributivos aos resultados. Terceiro: infraestrutura, desde a urbana até para eixos de produção e exportação.

Quarto: tecnologia, inovação. Não podemos abrir mão do pouco que já conseguimos em gastos com pesquisa e desenvolvimento”, lista Mussi, acrescentando ainda a educação e a estabilidade macroeconômica para completar os seis objetivos.

Fonte: Estadão

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