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Notícia

Agronegócio ajuda, mas não blinda varejo

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Apesar da riqueza gerada pela agropecuária no Centro-Oeste e Sul, levando a um avanço na renda da população, entidades setoriais e varejistas locais afirmam que a boa fase não “blindou” esse mercado da crise da pandemia.

Cruzamento de dados sobre desempenho do comércio, renda e Produto Interno Bruto (PIB) regionais mostram que os ganhos com a disparada do dólar e o aumento do preços das commodities favoreceram o consumo em áreas fortemente agrícolas, cujo segmento responde por, no mínimo, 30% do PIB local - basicamente Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Varejistas em Estados mais agrícolas têm crescido entre 20% a 40% neste ano, apurou o Valor.

Em outros Estados onde esse peso é menor, como Goiás e Rio Grande do Sul, a renda tem se concentrado em cidades no interior que formaram núcleos com demanda mais resiliente nos últimos meses, mas sem força o bastante para sustentar o consumo de todo o Estado, dizem redes regionais ouvidas. Comércio e serviços próximos a capitais desses Estados amargaram perdas.

“Cria-se uma ilusão de que o dinheiro se espalha igualmente pelos Estados, mas isso não é verdade. Em muitos locais, essa riqueza concentrada em algumas áreas agropecuárias mitigou só parte do impacto da crise com a covid ”, diz José Guimarães, presidente da Novo Mundo, tradicional rede de varejo eletrônico do Centro-Oeste, com atuação em nove Estados.

Enquanto o varejo brasileiro cresceu 1,2% em volume em 2020, em Goiás e no Rio Grande do Sul - onde a produção agrícola contribui com 11% do PIB - o setor encolheu 2,2%. O Rio Grande do Sul sentiu a forte estiagem em 2020, afetando o consumo, e Goiás tem alta dependência de serviços (65% do PIB), que encolheu na crise.

Nos Estados do Sul, com agropecuária consolidada, o destaque foi Santa Catarina, com avanço do comércio de 5,6%, seguido à distância pelo Paraná, com alta menor, de 0,7%. Santa Catarina também sentiu a seca em 2020, mas o comércio no Estado foi beneficiado pela pecuária, com exportação de carne suína e frango, favorecida pela escalada do dólar. E o setor de serviços na região recuou menos (0,4%) que no resto do país.

De acordo com Rubens Fileti, presidente da associação comercial de Goiás, a crise levou à redução no tamanho dos polos de produtos de moda e acessórios, “duramente afetados em parte do Centro-Oeste”. “Na região comercial da Rua 44 [em Goiânia], 2 mil a 3 mil lojas fecharam as portas desde início da crise”, disse. Há 15 mil pontos de venda na região, espalhados em mais de 100 galerias.

Na avaliação de empresários e executivos locais, em certas regiões o impacto da crise sanitária abalou de forma tão relevante a renda gerada pelos serviços, comércio e em parte da indústria - a alimentar continua forte -, que não foi possível compensar esse efeito com o rendimento originado pelo agronegócio.

“Tivemos uma geração maior de renda, mas ela não se espalhou a ponto de equilibrar o baque geral. Por exemplo, Rio Verde e Itumbiara, em Goiás, que produzem grãos, foram muito bem, mas todo o circuito turístico goiano parou. O ganho acabou mais concentrado. E o comércio local sente isso”, disse Dvair Lacerda, diretor comercial do grupo Fujioka, dono da rede de mesmo nome, com 54 lojas de varejo eletroeletrônico.

Lacerda ressalta que a empresa conseguiu crescer acima de 30% em 2020, em parte, por causa da Fujioka Distribuidor, que entrega nacionalmente. De janeiro a março, a alta nas vendas está em cerca de 20%. “Oitenta por cento da nossa receita vem dessa operação de distribuição. Vendemos para redes pequenas, e para cidades que fazem parte desse grupo de municípios que sentiu menos a crise. Quando uma área começava a desacelerar, compensávamos com outra que voltava a acelerar”.

Em outras áreas, o cenário tem sido mais positivo. No Mato Grosso, onde a agropecuária responde por pouco mais de 50% das riquezas, as vendas no varejo se aceleraram 4% no ano passado, e no Mato Grosso do Sul, com 30% do PIB ligado a essa área, a alta foi de 4,5%.

“Nós sentimos a crise, mas menos. No Mato Grosso do Sul houve fechamento de 4 mil empresas em 2020, segundo levantamento nas juntas comerciais. O número subiu sobre 2019 [cerca de 35%], mas em relação ao resto do país, não é algo tão representativo”, diz Renato Paniago, presidente da Associação Comercial de Campo Grande.

Para efeito de comparação, no Rio Grande do Sul, onde o varejo encolheu em 2020, foram 30 mil fechamentos de empresas só até setembro, segundo as juntas locais - sendo 5 mil do comércio.

Segundo levantamento feito por Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, a confederação nacional do comércio, cada aumento de 1% na renda de 2012 a 2019 levou a uma alta de 0,9% no faturamento do comércio. “Apesar de termos cinco países diferentes numa mesma fronteira, e com geoeconomias diferentes, há um relação direta entre renda e gastos no varejo,e com particularidades muito próprias em cada área”.

Segundo associações comerciais, o fato de o varejo digital ter se desenvolvido no Centro-Oeste nos últimos anos, antes da crise, com redes ampliando investimentos em logística, evitou uma queda mais generalizada no desempenho da região, apesar do fechamento das lojas na pandemia.

De acordo com Guimarães, da rede Novo Mundo, a venda on-line da cadeia chegou a 70% do total em 2020, quando os pontos estavam fechados, e hoje está em 40%.

Para 2021, a Novo Mundo, com 150 lojas nas regiões Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste, projeta dobrar investimentos, para R$ 45 milhões, e abrir no mínimo 20 lojas e no máximo, 40.

“Vamos ampliar a área de um centro de distribuição em São Luis do Maranhão e de um centro em Goiânia, que armazenará produtos de lojistas do marketplace”.

Para o diretor da rede de material de construção Todimo, Juliano Bortoloto, com 28 lojas no Distrito Federal e Goiás, no interior dos Estados fortes na agropecuária, onde a aglomeração é menor que nas grandes cidades, e a taxa de emprego é maior, o consumidor tende a se sentir mais confiante para fazer gastos. “O desemprego nas áreas urbanas e a incerteza afetam a confiança. No interior do Mato Grosso, há pleno emprego”, diz.

“Na nossa projeção continuaremos com venda forte em 2021 porque vemos uma procura expressiva por itens para casa”. Apesar de atuar no varejo goiano, que encolheu em 2020, Bortoloto afirma que a definição do segmento como atividade essencial ajudou nos resultados. No primeiro bimestre de 2021, a rede se expandiu 38% nas lojas com mais de um ano de de operação - a média dos últimos anos foi de 9%. No acumulado de 2020, a alta foi de 12%. O setor cresceu 11% no país, segundo a Anamaco, associação do segmento.

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