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Relatório comentado da Reunião do Conselho Consultivo da ABOL - 2017 (Parte II)

VII - Logística e terceirização

Mesmo (ou principalmente) em épocas de recessão, de crise ou de grandes incertezas, como atual, os mercados logísticos vivem momentos de acirramento e de aumento da competição, pois a integração das diversas cadeias de abastecimento, que compõem o sistema produtivo, é fundamental e necessária, sendo a terceirização desses serviços, cada vez mais comum.

Não há novidade, portanto, quando se diz que atualmente as cadeias de produção são muito mais globais e complexas e estão permanentemente exigindo um conjunto de ações integradas, coordenadas, com desenhos e soluções logísticas mais personalizadas – a clientes, produtos e regiões - e adaptadas às novas realidades que, teimosa e frequentemente, se apresentam.

Multiplicação dos canais de distribuição e dos requisitos de entrega e distribuição, comércio eletrônico acelerando e estimulando entregas mais fracionadas, em mercados cada vez mais distantes e complexos, sejam eles de consumidores ou fornecedores, entre empresas ou entre países, fazem parte do cotidiano de todo o profissional de logística.

Neste cenário têm surgido grandes oportunidades, não só para operadores, mas também para usuários da logística, uma vez que a necessidade de melhorar a logística e o “supply chain”, converteu-se em fator fundamental do sucesso de qualquer empreendimento, privado ou público. Se a melhoria no atendimento a clientes, a redução de custos e a racionalização operacional transformaram-se em objetivos indiscutíveis, a busca da eficiente integração dos vários agentes que compõem as cadeias de abastecimento também se transformou em objetivo a ser alcançado. E simultaneamente! 

Não se pode esquecer que os operadores logísticos, sempre buscando adequação às novas exigências de mercado e às mudanças de ambientes nos quais estavam inseridos, promoveram profundas alterações em suas próprias características, desenhando, inclusive, um conjunto de novas atribuições.

Para isso foi fundamental entender que uma logística eficaz, assim compreendida, além de contribuir para a diminuição dos custos operacionais, também se tornou em instrumento de crescimento das forças de marketing, na medida em que possibilitou o aproveitamento e a exploração de mercados mais distantes (de insumos ou para os produtos finais), agregou valor ao produto e à empresa e gerou satisfação ao cliente.

Consequentemente, e diferente do que ocorreu em épocas recentes, é que agora, além de se buscar soluções mais inteligentes para a diminuição das despesas com logística, passou-se a se discutir a logística sob o ponto de vista estratégico, uma vez que ela propicia, para empresas e países, vantagens competitivas imprescindíveis. A logística transformou-se em diferencial mercadológico, pois pelo menos no curtíssimo prazo, o novo modelo logístico implantado não poderá ser copiado ou imitado. E na medida em que isso ocorre, mais a logística passa a ser considerada como ativo da própria empresa ou do país.

Se a logística já tinha como missão disponibilizar o produto certo, na quantidade certa, no lugar certo, no tempo certo e com o menor custo possível, ela agora está incorporada à estratégia empresarial (e também governamental) e é imprescindível considerá-la quando se elaboram planos de negócios, de crescimento e desenvolvimento econômicos.

Na sequência, os operadores logísticos, responsáveis pela terceirização desses serviços junto a um número cada vez maior de empresas, deixaram de ter atuações meramente operacionais e passaram a exercer, junto aos seus clientes, funções fundamentalmente estratégicas, aumentando o nível de controle sobre suas operações, expandindo o esboço de seus contratos e oferecendo serviços complexos e sofisticados. Transformou-se em consenso, inclusive entre os especialistas, que esses tipos de serviços logísticos somente serão executados por operadores que, de fato, tenham relacionamentos estratégicos com seus clientes e que contemplem compartilhamento de riscos. Se no início, os clientes exigiam, essencialmente, redução de custos em operações com nichos e infraestrutura específicos, agora a busca é para se contratar gerenciadores da cadeia de abastecimento com foco no relacionamento estratégico e que prestem serviços nos quais a qualidade, o conhecimento, a capacitação no provimento desses serviços, bem como a postura colaborativa e flexível sejam características inegociáveis. 

Óbvio, portanto, que esses profissionais precisem lidar com um aumento significativo dos riscos aos quais estão expostos, sejam eles oriundos dos fenômenos da natureza ou simples consequências das diversas circunstâncias políticas, econômicas e financeiras que se apresentam. O aumento dos riscos, da volatilidade e da imprevisibilidade (culturas, costumes, regulamentações, infraestruturas e custos diferentes) também têm se tornado mais constantes na vida dos operadores logísticos e administradores das cadeias de abastecimento, notadamente daqueles que trabalham com o comércio exterior e o mercado internacional.

Como diz o professor doutor Dale Rogers, Head Supply Chain Management Department da Arizona State University, os principais líderes empresariais, em épocas de crise, deveriam encarar a realidade como ela é, não importando como as coisas poderão estar ruins, pois elas poderão se agravar. Faça caixa, utilize o ‘supply chain’ como um fundo e seja agressivo. Nunca desperdice uma boa crise! Citando Paul Romer, economista-chefe do Banco Mundial, arrematou: “Uma crise é uma coisa terrível para ser desperdiçada”. Ou como disse o professor Bill George, da Universidade de Harvard: “A crise não se resolverá sozinha, então negar sua existência pode apenas deixar as coisas piores, muito piores”.

Esse posicionamento também é corroborado pelo professor Thomas W. Derry, CEO do Institute for Supply Management: “O papel mais estratégico da gestão de suprimentos acontece durante crises econômicas quando é mobilizada para otimizar o capital de giro da empresa, gerenciar estoques de forma mais eficiente, gerenciar relacionamentos com fornecedores e manter a garantia de abastecimento, dentre outros”.

VIII - Os prestadores de serviços logísticos

Dentro deste contexto, e ao que tudo indica, o posicionamento estratégico que se apresenta mais viável às empresas que buscam se firmar nas atividades logísticas é, pela ordem, posicionar-se de forma diferenciada e estratégica frente aos clientes, reforçar sua marca através de reconhecida capacidade e competência operacionais e oferecer prestação de serviços adaptados às necessidades dos clientes, bastante abrangente e flexível, caracterizando, de fato, a prestação de serviços integrados. E como já salientado, desde que esses operadores tenham funcionários, além de capazes, ligados às mudanças do mercado, da economia e da sociedade, aptos a lidarem com riscos e que saibam agir, quando necessário, de forma rápida e precisa.

A grande maioria das empresas, em todo o mundo e notadamente no momento atual, tem sérias dificuldades para colocar seus planos de negócios em bons termos, não sendo à toa que elas, ao buscarem liquidez, rentabilidade e preservação de suas posições de mercado, querem diminuir custos via aumento de produtividade. Entre outras providências, bastante citada está a melhoria do atendimento a clientes, suas cadeias de suprimentos e seus processos operacionais, isto é, melhoria da logística e do supply-chain. Terceirizar essas atividades é, sem dúvida, um dos meios.

Segundo a quase totalidade das pesquisas, um dos principais motivos para a terceirização é a diminuição dos custos logísticos. Outros fatores também importantes são a confiança e a qualidade do serviço prestado. Como também comprovam as estatísticas mais recentes, é a má qualidade dos serviços prestados o item mais importante para se substituir um operador logístico. Essas informações, aliás, são uma grata demonstração de que a escolha de um operador logístico está intimamente vinculada ao conceito da relação custo-benefício. Na medida em que esse operador exerce papel estratégico dentro da empresa contratante, a logística deixa de ser apenas um meio para redução de custos e passa a fazer parte da “essência da estratégia competitiva”, não podendo, sob hipótese alguma, deixar de ‘funcionar’. Consequentemente, outros motivos, tão importantes quanto o custo e a qualidade dos serviços prestados, a confiança e o comprometimento também são requisitos importantes na decisão de se terceirizar a logística. O relacionamento pessoal é considerado como de fundamental importância para o sucesso dos operadores logísticos, da terceirização e a expansão dos seus negócios, posto que relação de lealdade e fidelidade são imprescindíveis.

Em face desse cenário de complexidade e rápidas mudanças, especificamente no que diz respeito às operações logísticas, seja do lado dos operadores ou dos usuários dos serviços logísticos, parece haver consenso sobre alguns pontos importantes:

  • Redução de custos a partir da diminuição da complexidade operacional e administrativa e do aumento da eficiência e da produtividade;
  • Total colaboração entre os “stakeholders”;
  • Realização de planejamento estratégico conjunto entre operadores e usuários da logística. Entre contratados e contratantes;
  • Manutenção do conceito colaborativo nas operações logísticas, no qual a relação “ganha-ganha” passa a ser postura rotineira;
  • Desenvolvimento, capacitação e retenção de talentos e identificação de futuros líderes;
  • Inovação e desenvolvimento da tecnologia da informação para atuar juntamente com o cliente;
  • Foco na melhoria contínua dos processos operacionais, aperfeiçoamento dos instrumentos de trabalho e constância na realização de inventários;
  • Implantação de gestão por demanda e integração do desenho logístico ao S&OP e às operações logísticas;
  • Implantação de boas práticas, SLAs e KPIs compatíveis, alinhados aos objetivos da empresa e sempre como mecanismos de gestão;
  • Busca, sempre que possível, da multimodalidade como forma de obter o melhor de cada modal, a redução custos de transporte e dos riscos e obtenção de ganhos de produtividade;
  • Cuidados permanentes com a Qualidade, a Segurança, a Saúde e o Meio Ambiente; e
  • Busca da sustentabilidade através da substituição, paulatina e constante, da matriz energética fóssil por uma matriz com energia renovável, sendo obrigatório a redução na emissão de Gases de Efeito Estufa -GEE.

IX – O Mercado de Operadores Logísticos no Brasil 

Antes de mais nada, e fundamental termos uma correta definição sobre o termo “Operador Logístico”. Para isso, buscou-se em anos recentes uma definição caracterizada por dois elementos: objetividade e completitude. Assim, após rigoroso estudo realizado em 2015, pela KPMG Consulting, Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga Advogados, com a participação técnica acadêmica da Fundação Dom Cabral (FDC) chegou-se à seguinte taxionomia:

Operador Logístico (OL) é a pessoa jurídica capacitada a prestar, através de um ou mais contratos, por meios próprios ou por intermédio de terceiros, os serviços de transporte, armazenagem e gestão de estoque.”

Importante também ressaltar a importância do setor para a economia, sendo que em estudo realizado em 2016, os seguintes números foram levantados:

  • Empresas que funcionam enquanto operadores logísticos no Brasil: 245
  • Receita Operacional Bruta (ROB): R$65,2 bilhões
  • ROB média: R$ 266 milhões
  • Empregos diretos gerados: 366 mil
  • Empregos indiretos (estimados): 732 mil
  • Impostos, tributos, contribuições e encargos: R$13,5 bilhões
  • Investimentos realizados pelo setor: R$2,6 bilhões

X – ABOL - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE OPERADORES LOGÍSTICOS 

Com legislação tributária e trabalhista complexas, extensão territorial de amplitude continental e infraestrutura anacrônica, o Operador Logístico (OL), ao seu turno, tem a situação agravada por ser uma atividade ainda não correta nem completamente compreendida no arcabouço legal, além de estar submetido à regulamentação de diversos órgãos anuentes, reguladores e intervenientes.

Com vistas a dar atenção aos principais temas de importância para o setor, empresários vinham buscando formar uma associação de classe patronal que efetivamente representasse o OL, oferecendo ambiente propício ao debate, focando e priorizando na regulamentação da atividade, trazendo para discussão temas relevantes como a questão tributária, fiscal, trabalhista, previdenciária e sindical, além de aspectos técnicos voltados para as boas práticas e benchmarking internacional, os quais, certamente, enriqueceriam o entendimento do OL por todos os elos da cadeia produtiva, sobretudo por ser empregador intensivo de mão de obra, gerador de renda, sendo essencial à atividade econômica dos mais diversos setores.

E foi justamente da relevância e da necessidade da criação de uma associação que discutisse o setor, representando-o junto ao poder público e à sociedade civil em geral, a ABOL (Associação Brasileira de Operadores Logísticos) foi fundada em 17 de Julho de 2012 com a missão principal de “Representar, promover e desenvolver os Operadores Logísticos do Brasil para que gerem valor de forma sustentável

XI - Segurança logística e atuação governamental

A ABOL entende que governança é uma característica essencial das modernas administrações (pública e privada) e parece ser fundamental que o governo promova e induza o fortalecimento da logística, naquilo que lhe é de responsabilidade. Por exemplo:

  • Fortalecendo as agências reguladoras que, além de retomarem suas autonomias e priorizarem a competência técnica, precisarão se livrar das influências e nomeações políticas.
  • Desburocratizando e restabelecendo a capacidade de planejamento integrado como forma de evitar a sobreposição de funções institucionais e os conflitos de gestão;
  • Traçando políticas para a logística brasileira que contemplem a multimodalidade e a articulação das diversas cadeias produtivas;
  • Institucionalizando, até mesmo com o PNLT (Plano Nacional de Logística e Transporte), processos contínuos de planejamento, como forma de se manter essas políticas integradas;
  • Transformando a EPL (Empresa de Planejamento Logístico) em empresa que, de fato, tenha condições para organizar, estruturar e qualificar o planejamento integrado da infraestrutura e da logística no Brasil;
  • Estabelecendo regras claras (marcos legais e regulatórios com bastante transparência) para atrair a iniciativa privada para projetos de infraestrutura logística. Introduzindo, inclusive, o “Compliance” como instrumento inegociável, posto que combater e corrupção com mais eficiência é imprescindível;
  • Priorizando projetos mais viáveis e compatíveis com as políticas maiores (econômicas e de investimentos em infraestrutura logística);
  • Assegurando que os projetos implantados maximizem a utilização dos ativos instalados, bem como aqueles já existentes;
  • Definindo e buscando recursos que financiem os principais investimentos em infraestrutura estabelecidos.
  • Estabelecendo critérios claros e justos de financiamentos, das taxas de retorno sobre investimentos que, além de atrair investimentos do setor privado, diminuam riscos cambiais ou falta de seguro, por exemplo.

Vale a pena relembrar frase do professor Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral: “Apesar de nossos atrasos e da grande necessidade de melhorias de processos de gestão, já temos, sim, um importante histórico de grandes obras de infraestrutura, e que foram realizadas por companhias nacionais e internacionais extremamente competentes, por meio de milhares de profissionais dedicados e comprometidos com o país”. 

XII - Brasil: nem tudo está perdido

Apesar de tudo, neste obscuro e complexo cenário brasileiro, é fundamental que se reconheçam os pontos positivos gerados pela própria crise (e outros que ainda estão por vir) e, a partir daí, renovar as esperanças. Apesar de todas as dificuldades impostas, não se pode esquecer que:

  • Reformas estruturais importantes foram aprovadas ou estão encaminhadas para discussão (PEC do Teto, Reforma Trabalhista, Reforma Previdenciária, Reforma do Ensino Médio e a Lei do Petróleo, por exemplo);
  • Reformas microeconômicas, imprescindíveis, também estão em discussão ou em aprovação (de crédito e de infraestrutura são dois exemplos importantes);
  • As instituições, apesar de alguns conflitos e de ‘forças contrárias’, estão resistindo, funcionando de forma satisfatória e cumprindo seus papéis institucionais, inclusive no combate à corrupção;
  • Os assuntos políticos, e mesmo econômicos, estão sendo discutidos à exaustão, não só nos meios de comunicação, mas também por grande parte da população brasileira, que se acostumou com esse tipo de noticiário. É possível que o brasileiro comece a aprender com os erros cometidos;
  • O Brasil mantem sua importância no contexto mundial e, apesar das más notícias, algumas até vexatórias, tem mostrado que está buscando, mesmo parcialmente, mas de forma transparente, tomar as providências que se fazem necessárias;
  • A inflação foi vencida e o câmbio e a taxa de juros estão sob controle
  • A Balança Comercial continua gerando resultados positivos e as reservas brasileiras, em 2017, alcançaram US$ 374 bilhões (em 2003 eram US$ 50 bilhões);
  • O setor agrícola continua tendo resultados cada vez melhores, não só
  • em produtividade (aumento mais de 80% em 20 anos) mas também no total produzido. Em 2017 serão produzidas mais de 238 milhões de toneladas de grãos – recorde histórico - com produtividade próxima de 3,9 toneladas por hectare. Em 1997, para a produção de 74,8 milhões de toneladas de grãos, foram utilizados 34,5 milhões de hectares, ou seja, 2,17 toneladas por hectare;
  • A crença no mercado brasileiro continua existindo e a entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos tem sido satisfatória;
  • A OMC (Organização Mundial do Comércio) já reconhece o Brasil como o País, entre os maiores do mundo e desde outubro de 2016, que mais tem adotado medidas para facilitar o comércio com o exterior e facilitar o comércio internacional. Medidas que reduzem tarifas de importação e desburocratizam o fluxo comercial com países estrangeiros estão sendo tomadas;
  • A estabilidade está sendo mantida e a recuperação da economia, mesmo que de forma lenta, está sendo obtida. Longe ainda do que se precisa, o ano de 2017 foi bem melhor do que o ano anterior e 2018 inicia com boas perspectivas. apresentam números promissores.

É indiscutível que o Brasil, com a crise e apesar dela, tem conseguido obter alguns ganhos institucionais importantes, pois a população, mais informada (a imprensa continua livre), também está mais envolvida e percebeu, de forma clara e inequívoca, que a movimentação política e o voto são importantes na vida dos cidadãos. Passou-se a acreditar que gente poderosa também responde à justiça e pode ser presa como qualquer pessoa comum. As classes políticas e dirigentes, por sua vez, sob o risco e o medo de ‘perderem os dedos’, sabem que precisarão ter respostas imediatas aos anseios da população.

Considerando as atuais circunstâncias e mesmo que ainda possa haver pequena piora, mas sem chegar no cenário de caos completo, é fundamental:

  • Não acreditar que tudo está errado e que tudo precisa ser mudado;
  • Diante da falta de líderes e de forças políticas confiáveis, tomar cuidado com o radicalismo, o populismo e a resolução fácil de problemas complexos;
  • Buscar políticos, e eventualmente candidatos, que se comprometam a manter os ajustes e as reformas imprescindíveis – mesmo que dolorosas – que tenham o objetivo de estabelecer bases para a melhora das condições políticas, sociais e econômicas nacionais;
  • Mesmo que o foco ainda seja econômico, adotar políticas sociais sérias e voltadas ao desenvolvimento das pessoas, notadamente na Educação, na Saúde e na Segurança Pública;
  • Adotar medidas que resgatem, na Política, na Economia, na Administração Pública e nos Negócios, a Moral e a Ética;
  • Rediscutir o que queremos do Estado, ou melhor, que Estado queremos. Enfrentar um patrimonialismo pernicioso e que tanto tem caracterizado o Estado brasileiro;
  • Promover profundas reformas na Política e nos Sistemas Partidário e Eleitoral. Mesmo que não seja possível para as eleições, é preciso tê-las na agenda;
  • Ter coragem para desenvolver um programa efetivo e permanente de informações no qual seja desmonstrado, com clareza e realismo, o tamanho e a gravidade da crise atual. Não há outra forma, pelo menos Democrática, de comprometer e envolver a maioria da população, dos empresários e da sociedade civil, na construção desse processo reformador. Sem medo, é preciso fazer o quê precisa ser feito.

Embora a vontade política para se enfrentar esses obstáculos seja o primeiro passo, é evidente que a realização desses investimentos, com significativa participação do setor privado, terá que suplantar outros obstáculos de ordem política e até mesmo ideológica. Na medida em que o governo abre mão de determinadas atividades econômicas e as transfere para o setor privado – geralmente com maior produtividade, maior eficiência, desaparelhado e totalmente despolitizado, ele terá melhores condições para focar suas principais atribuições, tais como segurança, saúde e educação

O futuro do Brasil, como um país melhor, talvez agora um pouco mais distante, depende somente dos brasileiros. Até porque todos estão ficando cansados desta crise que já se arrasta por mais de três anos e da ‘mediocridade’ que caracteriza a maioria de nossos políticos e de nossa classe dirigente. É preciso coragem para encarar a realidade como de fato ela é e tomar as atitudes necessárias, por mais ‘amargas’ que possam ser.

Se a solução para a crise econômica instalada no Brasil passa pelo equilíbrio das contas públicas, a aprovação de um conjunto significativo de reformas e a retomada dos investimentos, notadamente aqueles voltados à infraestrutura, mas com decisiva e significativa participação do setor privado, é imprescindível que se resgatem a confiança e a credibilidade neste País, seja lá qual for o governo. De fato, uma agenda fundamental para qualquer governo de plantão.

Profº Paulo Roberto Guedes, MSc.

(1) Essa agenda ficou conhecida como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). À semelhança do que já havia feito em 2000, quando foram propostos os Objetivos do Milênio, a ONU lançou, em setembro do ano passado, uma agenda de trabalho que prevê, para os próximos 15 anos, como única e resumida finalidade, “propiciar padrões de vida adequados aos habitantes do planeta, de forma sustentável e com direitos iguais para todas as pessoas”. Essa agenda, em seus 17 grandes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) está subdividida em 169 metas principais.

(2) Segundo estudos do Fórum Econômico Mundial, até o ano de 2020, 7 milhões de empregos poderão se tornar obsoletos. Os EUA poderão perder cerca de 40% de empregos existentes, enquanto em países como China, Brasil e Índia esses percentuais poderão chegar a 50%! Ainda, segundo estudos do Fórum Mundial, no Brasil a indústria terá menos 60% de empregos, o transporte, menos 61% e a hotelaria, menos 63%.

(3) Brasil como país primário exportador, entre 1821 e 1830, por exemplo, tinha 84,6% de suas exportações compostas por produtos básicos. O açúcar era o principal item, com 32,2%, seguido pelo algodão (19,9%), café (18,6%), pelos e couros (13,8%) e borracha (0,1%). Entre 1831 e 1890 os principais itens de exportação eram: café, açúcar, algodão, couros e peles, borracha e cacau. Os produtos primários chegaram ao ápice das exportações na última década do século XIX (1891 e 1900) quando do total da pauta exportadora obteve 90,3%, sendo o café, com quase 64%, o principal produto. Seguiam-se a borracha (15,8%), açúcar (5,7%), e algodão e peles e couros, ambos com 2,48%. Ainda na década que compreendeu os anos de 1941 a 1950, as exportações de produtos primários eram significativas: 62,5% do total, segundo dados históricos do MDIC. Ainda nesta década o café, agora com 46,1% era o produto mais importante, seguido pelo algodão, peles e couros, borracha e açúcar.

(4) Considerando o ano de 1929, como ano base, igual a 100, o nível de industrialização do Brasil em 1938 era igual a 193, isto é, em sete anos aumentou cerca de 93%, segundo dados de Francisco B.B. Magalhães em seu livro “História Econômica” (Sugestões Literárias, 1981). As exportações de produtos manufaturados em 1938 eram equivalentes apenas a 0,4% do total. Nos anos 70 a Indústria brasileira era moderna e exportava bastante seus produtos, crescendo a 15% ao ano, quando comparadas com as exportações mundiais. Chegou a 57,5% do total das exportações no ano de 1984, enquanto os produtos básicos representavam apenas 28,3%. No ano 2000 as exportações de manufaturados chegaram a 58,2% e os produtos primários alcançaram 27,6%, segundo dados do MDIC (Ministério da Indústria e do Comércio Exterior e Serviços.

(5) Participações do setor industrial na formação do produto interno bruto brasileiro: de 12% em 1900, chegou a 29% em 1990 e iniciou um período de queda: 27% em 1995 e 21,2% em 2016. As exportações industriais, que em 1984 alcançaram 57,5%, em 1997, 54,8% e em 2000, 58,2%, começaram a declinar a partir daí.

(6) Dados do Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC) indicam que na década de 70 o País contava com uma indústria avançada, que produzia satisfatoriamente produtos de média e alta / média tecnologias e era exportadora de manufaturados em proporções significativas se comparado com os demais produtos da pauta de exportação. Atualmente a situação é totalmente diferente: as exportações de produtos manufaturados, que chegaram a 58,2% do total da pauta de exportação em 2000, foram menos de 35% em 2017 e os produtos básicos saíram de 27,6% do total exportado para 51,1%! Ainda, segundo o MDIC, a indústria, responsável por 29% do PIB em 1990, chegou apenas a 19% em 2017.

(7) Segundo dados da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, os investimentos, que haviam alcançado 19,2% do PIB em 2014, tiveram quedas constantes, ficando em 16,8% no ano de 2015, 15,7% em 2016 e 16,1% em 2017. Segundo dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) a taxa média de investimentos de 26 países analisados, inclusive o Brasil, foi de 24,7% em 2015. Estimam os especialistas do FMI, que o nível ideal é de 25% do PIB. Como se vê, o Brasil está muito abaixo e as taxas de poupança também não são nada animadoras: 15,6% do PIB em 2014,13,9% em 2015, 16,0% em 2016 e apenas 15,2% em 2017.

(8) A taxa de alfabetização (adultos acima dos 15 anos) do Brasil em 2011: 90,0% (84ª posição dentre os 187 países listados). Em 2012: 91,3% de alfabetização Brasil ocupa a 134ª posição dentre 217 nações de todo o mundo (The World Factbook, publicação anual da CIA / EUA). Pesquisa do PNAD/IBGE de 2013: Brasil com 8,3% no índice de analfabetismo. Dos 65 países do ranking do PISA de 2012, o Brasil ficou no lugar de número 57, tendo se posicionado no 58º lugar em matemática, 59º em ciências e 55º em leitura. Exames do ENEM: Entre 2014 e 2013 média geral caiu em 1,1%. Em Matemática a queda foi de 7,3% e em Redação, 9,7%. Além do que, há que se considerar que 8,5% dos participantes obtiveram nota ZERO na Redação. Dentre 6,2 milhões de participantes, 55,7% estariam teoricamente reprovados, posto que obtiveram apenas nota 500, quando o máximo é 1.000. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que avalia recém-formado, tem índice de reprovação acima dos 80%, se analisamos as médias obtidas entre 2011 e 2015. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), em exames de avaliação, reprova quase 55% de seus profissionais e com três informações preocupantes: (i) “O Exame do Cremesp de 2012 demonstra que há deficiências na formação dos estudantes em campos essenciais do conhecimento médico”; (ii) “Erros em questões de conhecimentos básicos em Medicina mostram graves deficiências na formação acadêmica de algumas escolas médias”, disse o ex-presidente do Conselho, Dr. Renato Azevedo Jr.; (iii) “Esse resultado (2014) demonstra a má qualidade do ensino médico no País”, comentou o presente do Cremesp, Dr. Bráulio Luna Filho. E emenda: “além de representar um risco para os pacientes assistidos”.

(9) Estatísticas apresentadas no documento Atlas da Violência 2017, elaborado pelo IPEA e pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), dão conta de que, no Brasil, mata-se mais do que em muitas guerras que, de forma assustadora, vimos estampadas no noticiário internacional. A Guerra entre Israel e Palestina, alcançou o número de 66 mortes por dia. No Brasil, com aproximadamente 56.000 pessoas mortas anualmente pela violência, chegamos ao triste número de 154 mortes por dia! 28,9 mortes por 100.000 habitantes. Segundo a ONU, acima de 10 mortes por 100 mil habitantes, caracteriza-se “violência epidêmica”. No trânsito também estamos em péssimas condições. Com aproximadamente 45.000 mortes por ano, o Brasil está entre os 10 países que mais tem mortes por acidentes de trânsito. 

(10) Dados da “Conference Board”, compilados pelo pesquisador Fernando Veloso, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, referente ao ano de 2015, indicam que o trabalhador brasileiro era capaz de produzir o equivalente a US$ 29.583, enquanto o coreano produzia US$ 71.287 e o americano US$ 118.826. Ou seja, o brasileiro produz 4 vezes menos que o americano e 2,4 vezes menos que o coreano. A relação do índice de produtividade entre brasileiros e americanos é a pior desde 1950.